
Apoio:
Patrocnio:
Realizao:
RESSURREIO
Machado de Assis
Copyright  2000, virtualbooks.com.br
Todos os direitos reservados a Editora Virtual Books
Online M&M Editores Ltda. proibida a reproduo do
contedo deste livro em qualquer meio de comunica-
o, eletrnico ou impresso, sem autorizao escrita
da Editora.
RESSURREIO
Machado de Assis
Advertncia da nova edio
Este foi o meu primeiro romance, escrito a vo muitos anos. Dado em
nova edio, no lhe altero a composio nem o estilo, apenas troco dois
ou trs vocbulos, e fao tais ou quais correes de ortografia. Como
outros que vieram depois, e alguns contos e novelas de ento, pertence 
primeira fase da minha vida literria.
1905.
M. de A.
Advertncia da 1 edio
No seio que deva pensar deste livro; ignoro sobretudo, o que pensar
dele o leitor. A benevolncia com que foi recebido um volume de contos e
novelas, que h dois anos publiquei, me animou a escrev-lo.  um
ensaio. Vai despretensiosamente s mos da crtica e do pblico, que o
trataro com a justia que merecer.
A crtica desconfia sempre da modstia dos prlogos, e tem razo.
Geralmente so arrebiques de dama elegante, que se v ou se cr bonita,
e quer assim realar as graas naturais. Eu fujo e benzo-me trs vezes
quando encaro alguns desses prefcios contritos e singelos, que trazem
os olhos no p da sua humildade, e o corao nos pncaros da sua
ambio. Quem s lhes v os olhos, e lhes diz verdade que amargue,
arrisca-se a descair no conceito do autor, sem embargo da humildade que
ele mesmo confessou, e da justia que pediu.
Ora pois, eu atrevo-me a dizer  boa e sisuda crtica, que este prlogo
no se parece com esses prlogos. Venho apresentar-lhe um ensaio em
gnero novo para mim, e desejo saber se alguma qualidade me chama para
ele, ou se todas me faltam,  em cujo caso, como em outro campo j tenho
trabalhado com alguma aprovao, a ele volverei cuidados e esforos. O
que eu peo  crtica vem a ser  inteno benvola, mas expresso
franca e justa. Aplausos, quando os no fundamenta o mrito, afagam
certamente o esprito, e do algum verniz de celebridade; mas quem tem
vontade de aprender e quer fazer alguma coisa, prefere a lio que
melhora ao rudo que lisonjeia.
No extremo verdor dos anos presumimos muito de ns, e nada, ou quase
nada, nos parece escabroso ou impossvel. Mas o tempo, que  bom mestre,
vem diminuir tamanha confiana, deixando-nos apenas a que 
indispensvel a todo o homem, e dissipando a outra, a confiana prfida
e cega. Com o tempo, adquire a reflexo o seu imprio, e eu incluo no
tempo a condio do estudo, sem o qual o esprito fica em perptua
infncia.
D-se ento o contrrio do que era dantes. Quanto mais versamos os
modelos, penetramos as leis do gosto e da arte, compreendemos a extenso
da responsabilidade, tanto mais se nos acanham as mos e o esprito,
posto que isso mesmo nos esperte a ambio, no j presunosa, seno
refletida. Esta no  talvez a lei dos gnios, a quem a natureza deu o
poder quase inconsciente das supremas audcias; mas , penso eu, a lei
das aptides mdias, a regra geral das inteligncias mnimas.
Eu cheguei j a esse tempo. Grato s afveis palavras com que juzes
benvolos me tm animado, nem por isso deixo de hesitar, e muito. Cada
dia que passa me faz conhecer melhor o agro destas tarefas literrias, 
nobres e consoladoras,  certo,  mas difceis quando as perfaz a
conscincia.
Minha idia ao escrever este livro foi pr em ao aquele pensamento de
Shakespeare:
Our doubts are traitors,
And make us lose the good we oft might win,
By fearing to attempt.
No quis fazer romance de costumes; tentei o esboo de uma situao e o
contraste de dois caracteres; com esses simples elementos busquei o
interesse do livro. A crtica decidir se a obra corresponde ao intuito,
e sobretudo se o operrio tem jeito para ela.
 o que lhe peo com o corao nas mos.
M. A.
I
No dia de ano bom
Naquele dia,  j l vo dez anos!  o Dr. Flix levantou-se tarde,
abriu a janela e cumprimentou o sol. O dia estava esplndido; uma fresca
bafagem do mar vinha quebrar um pouco os ardores do estio; algumas raras
nuvenzinhas brancas, finas e transparentes se destacavam no azul do cu.
Chilreavam na chcara vizinha  casa do doutor algumas aves afeitas 
vida semi-urbana, semi-silvestre que lhes pode oferecer uma chcara nas
Laranjeiras. Parecia que toda a natureza colaborava na inaugurao do
ano. Aqueles para quem a idade j desfez o vio dos primeiros tempos,
no se tero esquecido do fervor com que esse dia  saudado na meninice
e na adolescncia. Tudo nos parece melhor e mais belo,  fruto da nossa
iluso,  e alegres com vermos o ano que desponta, no reparamos que ele
 tambm um passo para a morte.
Teria esta ltima idia entrado no esprito de Flix, ao contemplar a
magnificncia do cu e os esplendores da luz? Certo  que uma nuvem
ligeira pareceu toldar-lhe a fronte. Flix embebeu os olhos no horizonte
e ficou largo tempo imvel e absorto, como se interrogasse o futuro ou
revolvesse o passado. Depois, fez um gesto de tdio, e parecendo
envergonhado de se ter entregue  contemplao interior de alguma
quimera, desceu rapidamente  prosa, acendeu um charuto, e esperou
tranqilamente a hora do almoo.
Flix entrava ento nos seus trinta e seis anos, idade em que muitos j
so pais de famlia, e alguns homens de Estado. Aquele era apenas um
rapaz vadio e desambicioso. A sua vida tinha sido uma singular mistura
de alegria e melodrama; passara os primeiros anos da mocidade a suspirar
por coisas fugitivas, e na ocasio em que parecia esquecido de Deus e
dos homens, caiu-lhe nas mos uma inesperada herana, que o levantou da
pobreza. S a Providncia possui o segredo de no aborrecer com esses
lances to estafados no teatro.
Flix conhecera o trabalho no tempo em que precisava dele para viver;
mas desde que alcanou os meios de no pensar no dia seguinte,
entregou-se de corpo e alma  serenidade do repouso. Mas entenda-se que
no era esse repouso aquela existncia aptica e vegetativa dos nimos
indolentes; era, se assim me posso exprimir, um repouso ativo, composto
de toda a espcie de ocupaes elegantes e intelectuais que um homem na
posio dele podia ter.
No direi que fosse bonito, na significao mais ampla da palavra; mas
tinha as feies corretas, a presena simptica, e reunia  graa
natural a apurada elegncia com que vestia. A cor do rosto era um tanto
plida, a pele lisa e fina. A fisionomia era plcida e indiferente, mal
alumiada por um olhar de ordinrio frio, e no poucas vezes morto.
Do seu carter e esprito melhor se conhecer lendo estas pginas, e
acompanhando o heri por entre as peripcias da singelssima ao que
empreendo narrar. No se trata aqui de um carter inteirio, nem de um
esprito lgico e igual a si mesmo; trata-se de um homem complexo,
incoerente e caprichoso, em quem se reuniam opostos elementos,
qualidades exclusivas e defeitos inconciliveis.
Duas faces tinha o seu esprito, e conquanto formassem um s rosto, eram
todavia diversas entre si, uma natural e espontnea, outra calculada e
sistemtica. Ambas porm se mesclavam de modo que era difcil
discrimin-las e defini-las. Naquele homem feito de sinceridade e
afetao tudo se confundia e baralhava. Um jornalista do tempo, seu
amigo, costumava compar-lo ao escudo de Aquiles,  mescla de estanho e
ouro,  muito menos slido, acrescentava ele.
Aquele dia, aurora do ano, escolhera-o o nosso heri para ocaso de seus
velhos amores. No eram velhos; tinham apenas seis meses de idade. E
contudo iam acabar sem saudade nem pena, no s porque j lhe pesavam,
como tambm porque Flix lera pouco antes um livro de Henri Murger, em
que achara um personagem com o sestro destas catstrofes prematuras. A
dama dos seus pensamentos, como diria um poeta, recebia assim um golpe
moral e literrio.
Havia meia hora j que o doutor sara da janela, quando lhe apareceu uma
visita. Era um homem de quarenta anos, vestido com certo apuro, gesto ao
mesmo tempo familiar e grave, estouvado e discreto.
 Entre, Sr. Viana, disse Flix quando o viu aparecer  porta da sala.
Vem almoar comigo, j sei.
 Esse  um dos trs motivos da minha visita, respondeu Viana; mas
afirmo-lhe que  o ltimo.
 Qual  o primeiro?
 O primeiro, disse o recm-chegado,  dar-lhe o cumprimento de bons
anos. Folgo que lhe corra este to feliz como o passado. O segundo
motivo  entregar-lhe uma carta do coronel.
Viana tirou uma cartinha da algibeira e entregou-a ao doutor, que a leu
rapidamente.
 Creio que  um convite para o sarau de hoje? perguntou Viana quando o
viu dobrar a carta.
 ; transtorna-me um pouco, porque eu tencionava ir para a Tijuca.
 No caia nessa, acudiu Viana; eu era capaz de deixar todas as viagens
do mundo s para no perder uma reunio do coronel;  um excelente
homem, e d boas festas. Vai?
Flix hesitou algum tempo.
 Olhe que eu venho incumbido de lhe destruir todas as objees que
fizer, disse Viana.
 No fao nenhuma. O convite transtorna-me o programa; mas, apesar
disso, aceito.
 Ainda bem!
Um moleque veio dar parte de que o almoo estava na mesa. Viana
descalou as luvas e acompanhou o anfitrio.
 Que novidades h? perguntou Flix sentando-se  mesa.
 Nada que me conste, respondeu Viana imitando o dono da casa; o Rio de
Janeiro vai a pior.
 Sim?
  verdade; j no aparece um escndalo. Vivemos em completa
abstinncia, e chegou o reinado da virtude. Olhe, eu sinto a nostalgia
da imoralidade.
Viana era um homem essencialmente pacato com a mania de parecer
libertino, mania que lhe resultava da freqncia de alguns rapazes. Era
casto por princpio e temperamento. Tinha a libertinagem do esprito,
no a das aes. Fazia o seu epigrama contra as reputaes duvidosas,
mas no era capaz de perder nenhuma. E, todavia, teria um secreto prazer
se o acusassem de algum delito amoroso, e no defenderia com extremo
calor a sua inocncia, contradio que parece algum tanto absurda, mas
que era natural.
Como Flix no lhe animasse a conversa no terreno em que ele a ps,
Viana entrou a elogiar-lhe os vinhos.
 Onde acha o senhor vinhos to bons? perguntou depois de esvaziar um clice.
 Na minha algibeira.
 Tem razo; o dinheiro compra tudo, inclusive os bons vinhos.
A resposta de Flix foi um sorriso ambguo, que podia ser benevolente ou
malvolo, mas que pareceu no produzir impresso no hspede. Viana era
um parasita consumado, cujo estmago tinha mais capacidade que
preconceitos, menos sensibilidade que disposies. No se suponha,
porm, que a pobreza o obrigasse ao ofcio; possua alguma coisa que
herdara da me, e conservara religiosamente intato, tendo at ento
vivido do rendimento de um emprego de que pedira demisso por motivo de
dissidncia com o seu chefe. Mas estes contrastes entre a fortuna e o
carter no so raros. Viana era um exemplo disso. Nasceu parasita como
outros nascem anes. Era parasita por direito divino.
No me parece provvel que houvesse lido S de Miranda; todavia, punha
em prtica aquela mxima de um personagem do poeta: boa cara, bom
barrete e boas palavras, custam pouco e valem muito...
Chamando-lhe parasita no aludo s  circunstncia de exercer a vocao
gastronmica nas casas alheias. Viana era tambm o parasita da
considerao e da amizade, o intruso polido e alegre, que,  fora de
arte e obstinao, conseguia tornar-se aceitvel e querido, onde a
princpio era recebido com tdio e frieza, um desses homens metedios e
dobradios que vo a toda a parte e conhecem todas as pessoas, boa
cara, bom barrete, boas palavras.
Parecendo-lhe que Flix estaria preocupado, Viana entendeu no dizer
palavras antes de achar ocasio oportuna. Veio o caf, e o primeiro que
rompeu o silncio foi o doutor. Viana aproveitou habilmente o ensejo
para reatar o fio dos louvores, to asperamente quebrado pelo dono da
casa. No lhe elogiou desta vez os vinhos, mas as qualidades pessoais;
afirmou-lhe que ningum era mais querido na casa do coronel Morais, e
que le prprio no se recordava de pessoa a quem mais estimasse neste
mundo.
 O senhor  to feliz a este respeito, terminou o hspede, que at as
pessoas que o no vem h muito conservam em toda a integridade o afeto
que o senhor lhes inspirou. Advinha de quem lhe falo?
 No.
 Bem, sab-lo- de noite; l ver em casa do coronel uma pessoa que o
admira, e que o no v h muito. Sejamos francos;  minha irm Lvia.
 Admira-me isso, porque eu apenas a vi duas vezes.
 No  possvel, insistiu Viana. Lembra-me que eu mesmo os apresentei
um ao outro. Se no me engano foi em dia da Glria, h dois anos...
 Eu descia o outeiro, continuou Flix, quando os encontrei. Estivemos
parados cinco minutos.  noite encontramo-nos em um baile;
cumprimentamo-nos apenas e nada mais.
 S isso?
 Nada mais.
 Nesse caso, concluiu Viana, cuido que o senhor possui o segredo de
fascinar as moas, s com cinco minutos de conversa e um cumprimento de
sala. Minha irm fala muito do senhor; pelos menos depois que veio de
Minas...
 Ah! ela esteve em Minas?
 Foi para l h perto de dois anos, depois que lhe morreu o marido.
Veio h oito dias; sabe o que me prope?
 No.
 Uma viagem  Europa.
 E vo?
 Os desejos de Lvia so ordens para mim. Contudo era talvez melhor que
eu fosse s, porque uma senhora  sempre obstculo aos desmandos de um
pecador como eu. No lhe parece?
  ento uma viagem de recreio? perguntou Flix.
 Ou de romance; Lvia tem esse defeito capital:  romanesca. Traz a
cabea cheia de caraminholas, fruto naturalmente da solido em que viveu
nestes dois anos, e dos livros que h de ter lido. Faz pena, porque 
boa alma.
 Vejo que tem todas as condies necessrias a um poeta, observou o
doutor; lembra-me que era bonita.
 Oh! a esse respeito a viuvez foi para ela uma renovao. Era bonita
quando o senhor a viu; hoje est fascinante. H ocasies em que eu sinto
ser irmo dela; tenho mpetos de a adorar de joelhos. Com franqueza,
assusta-me.
Leve sorriso encrespou os lbios de Flix, enquanto Viana prosseguia no
panegrico da irm, com um entusiasmo que podia ser sincero e
interessado ao mesmo tempo. Ao fim de um quarto de hora levantou-se este
para sair.
 At  noite? disse apertando a mo do dono da casa.
 At  noite.
Flix ficou s.
 Que mulher ser essa, perguntou a si mesmo, to bela que mete medo,
to fantasiosa que causa lstima?
II
Liquidao do ano velho
Meia hora depois apeava-se Flix de um tlburi  porta de uma casa no
Rossio. Subiu lentamente as escadas; a porta do fundo estava aberta;
Flix deu uma volta pelo interior da casa, e foi at  sala, sem que o
sentisse uma moa, que estava assentada perto da janela, com o rosto
voltado para a rua.
 Ceclia! disse ele.
A moa estremeceu e voltou-se.
 Ah! s tu. To tarde!
Flix aproximou-se, deu-lhe um beijo, e tirou-lhe o livro da mo.
 Tarde? disse ele folheando o livro; no pde ser mais cedo; tive
visitas em casa.
A moa contentou-se com a resposta; levantou-se e pondo-lhe os braos 
roda do pescoo, perguntou:
 Jantas hoje com algum?
 Janto l em casa.
 L em casa? repetiu ela; e por que no c em casa?
 No posso.
 Tens visitas?
 No.
 Jantas s?
 Janto.
 Preferes isso  minha companhia? murmurou enfim a moa com voz triste.
 Ceclia, respondeu Flix dando  voz toda a doura compatvel com a
rigidez da sua resoluo, h circunstncias que me obrigam a no jantar
c nem hoje nem nunca.
Ceclia empalideceu. Flix procurou tranqiliz-la dizendo que ia
explicar-lhe melhor. Insensvel s suas palavras, foi ela sentar-se no
sof e a permaneceu alguns instantes silenciosa. Flix deu alguns
passos na sala, aspirou as flores que tinham sido postas numa jarra,
naquele mesmo dia, talvez para receb-lo melhor; acendeu um charuto, e
foi sentar-se em frente de Ceclia. A moa fitou nele os olhos midos de
lgrimas. Depois, como se os lbios tivessem medo de romper uma cratera
 chama interior, murmurou estas palavras:
 E por que nunca mais?
 Ceclia, disse o doutor deitando fora o charuto apenas encetado, eu
tenho a infelicidade de no compreender a felicidade. Sou um corao
defeituoso, um esprito vesgo, uma alma inspida, incapaz de fidelidade,
incapaz de constncia. O amor para mim  o idlio de um semestre, um
curto episdio sem chamas nem lgrimas. H seis meses que nos amamos;
por que perders tu o dia em que comea o ano novo, se podes tambm
comear uma vida nova?
Ceclia no respondeu; fitava nele os olhos, que, se eram ternos e
buliosos nas horas de alegria, eram naquele momento sombrios e
profundos. Flix pegou-lhe na mo. Estava fria.
 No fiques abatida; o que fao agora no  novidade; ouviste-me dizer
muitas vezes que a nossa afeio era um captulo curto. Rias ento de
mim; fazias mal, porque era alimentar uma esperana v.
 Era, interrompeu Ceclia com voz trmula; reconheo agora que era.
Esperava, com efeito, que eu pudesse, com a minha constncia, resgatar
os erros que me pesavam na conscincia. Agarrei-me a ti como a uma tbua
de salvao; a tbua no compreendeu que salvaria uma vida e deixa-se
levar pela onda que arrebata das minhas mos. Enganei-me. No te fao
recriminaes; espero que me fars justia...
 Fao-te toda a justia, redargiu ele, acuso-me eu mesmo de estar
abaixo do papel de redentor.
Ceclia no prestou ateno ao tom irnico destas palavras, nem sequer
as ouviu. Levantou-se, deu alguns passos, encostou-se ao piano e pondo a
cabea entre as mos soluou  vontade. Mas essa exploso foi quase
silenciosa e durou pouco.
Meia hora depois despedia-se Flix de Ceclia, declarando-lhe que saa
dali como um gentleman, e que ela receberia os meios necessrios para
viver at que o esquecesse de todo.
Ceclia recusou esse ato de generosidade. Espantou-o imensamente tamanho
desinteresse; concluiu que ela teria algum amor em perspectiva.
Saiu.
Na rua do Ouvidor encontrou o doutor Meneses; jovem advogado com quem
entretinha relaes.
 Vem jantar comigo, disse.
 No jantas com Ceclia?
 Acabei o captulo; Ceclia est livre.
 Houve choro?
 O choro pertence ao cerimonial da separao. Era indispensvel.
Ceclia verteu algumas lgrimas, que eu procurei enxugar prometendo-lhe
os meios de viver algum tempo. Recusou; mas eu no lhe aceito a recusa.
 Fizeste mal em separar-te dela; Ceclia amava-te.
 Meneses, disse Flix, eu nunca fao mal quando quebro uma cadeia:
liberto-me.
 Talvez tenhas razo.
 Mas vem jantar comigo, continuou Flix dando-lhe o brao.
 No posso, vou jantar com minha me.
 Ah!
 So apenas duas horas; passearei contigo at s trs. Ou vais para
casa?
 No.
Deram o brao e desceram a rua.
 Se no  indiscrio, Flix, disse Meneses ao cabo de alguns minutos,
houve algum arrufo srio entre vocs?
 No.
 Desconfiavas dela?
 Tambm no.
 Nem te arrufaste, nem tinhas desconfiana. Sei que ela gostava de ti,
e tu mesmo me afirmaste que no era nenhuma desperdiada. Havia portanto
um milheiro de razes para que vocs prosseguissem neste romance.
Dar-se- que tenhas em vista algum casamento?
Flix riu-se e levantou os ombros.
 Ento, no compreendo, concluiu Meneses.
 Eu te digo, respondeu Flix; os meus amores so todos semestrais;
duram mais que as rosas, duram duas estaes. Para o meu corao um ano
 a eternidade. No h ternura que v alm de seis meses; ao cabo desse
tempo, o amor prepara as malas e deixa o corao como um viajante deixa
o hotel; entra depois o aborrecimento  mau hspede.
Meneses ouviu as palavras de Flix com os olhos postos no cho; sorriu
ligeiramente quando ele acabou.
 Queres ouvir uma coisa? perguntou.
 Dize.
 O teu cinismo parece-me hipocrisia.
 No  hipocrisia nem cinismo;  temperamento.
 No creio.
 Por qu?
Meneses no respondeu.
 Quase me arrependo de ser teu amigo, disse ele depois de algum tempo.
 s meu amigo? perguntou Flix com ar de mofa.
Meneses parou e encarou o companheiro.
 Duvidas?
 No duvido; mas ignorava isso at agora; sabes que as nossas relaes
datam de pouco tempo.
 Que importa o tempo? H amigos de oito dias e indiferentes de oito
anos.
 H!
A conversa tomou outra direo. Meneses ainda tentou falar da moa, mas
Flix no lhe prestou ateno. s trs horas separaram-se, Flix para as
Laranjeiras, Meneses para o Rossio.
Meneses era uma boa alma, compassiva e generosa. Tinha em flor todas as
iluses da juventude; era entusiasta e sincero; estava totalmente limpo
da menor eiva de clculo. Podia ser que com os anos perdesse algumas das
suas qualidades nativas, que nem todos resistem a estes dois terrveis
dissolventes: os lances da fortuna e o atrito dos caracteres. Mas
naquele tempo ainda no era assim.
A situao de Ceclia tinha-o comovido. Resolveu ir ter com ela.
Ceclia ficara resignada, mas triste. Quando Meneses entrou na sala
estava ela ao piano, tinha apoiado a cabea em uma das mos, e corria os
dedos pelo teclado. Contou-lhe tudo o que se passara; confessou que no
esperava a sbita mudana de Flix, que a sua dor fora imensa, e que
daria tudo para fazer reviver o recente passado; mas que no nutria
nenhuma esperana de reconciliao.
 E se eu tentar fazer alguma coisa?
 Tentar em vo, respondeu ela. Alm de que, eu no tenho nenhum
direito de prolongar uma felicidade incompatvel com a vontade dele.
Errei, confiando demais; errarei se tiver ainda uma esperana...
 Quem sabe, Ceclia? disse o moo, pondo-lhe a mo no ombro;  possvel
que Flix tenha cedido a um capricho. Vir a arrepender-se depois, mas o
seu orgulho no lhe deixar dar o primeiro passo. Nesse caso uma pessoa
influente pode convenc-lo de que a primeira glria  a reparao dos
erros.
Ceclia levantou os ombros; foi a sua nica resposta.
Meneses perguntou se haveria alguma razo de cimes.
 Posso jurar-lhe que durante todo este tempo pertenci-lhe
exclusivamente.
O juramento de Ceclia no devia valer muito aos olhos de um homem que
conhecesse bem todos os recursos de uma mulher naquelas condies. Mas o
nosso Meneses era ingnuo em coisas tais. Saiu de l cheio de piedade.
Nessa mesma tarde mandou uma carta s Laranjeiras, justamente na ocasio
em que Flix acabava de ler outra carta de Ceclia. A carta da moa era
tranqila e at certo ponto nobre. No lhe fazia nenhuma recriminao,
nem implorava nenhum favor. Defendia-se apenas, retirando de si a
responsabilidade da separao.
A carta de Meneses era cavalheiresca: descobria o estado de alma de
Ceclia e no hesitava em chamar ingrato ao prfugo dardnio. Flix
sorriu lendo ambas as missivas; depois atirou-as a uma cesta e nunca
mais as viu.
III
Ao som da valsa
A casa do coronel podia conter o triplo das pessoas convidadas para o
sarau daquela noite; mas o coronel preferia convidar apenas as pessoas
mais ntimas e familiares. Era homem pouco cerimonioso, gostava
sobretudo da intimidade.
Quando Flix entrou danava-se uma quadrilha. O coronel foi ter com ele
e levou-o para onde estava a mulher, que j o esperava com ansiedade,
pela razo, dizia ela, de que era um dos poucos rapazes que ainda
conversavam com velhas, estando entre moas. Flix sentou-se ao p de D.
Matilde. Estava ento de bom humor e conversou alegremente at que a
msica parou.
A mulher do coronel era o tipo da me de famlia. Tinha quarenta anos, e
ainda conservava na fronte, embora secas, as rosas da mocidade. Era uma
mistura de austeridade e meiguice, de extrema bondade e extrema rigidez.
Gostava muito de conversar e rir, e tinha a particularidade de amar a
discusso, exceto em dois pontos que para ela estavam acima das
controvrsias humanas: a religio e o marido. A sua melhor esperana,
afirmava, seria morrer nos braos de ambos. Dizia-lhe Flix s vezes que
no era acertado julgar pelas aparncias, e que o coronel, excelente
marido em reputao, fora na realidade pecador impenitente. Ria-se a boa
senhora destes inteis esforos para abalar a boa fama do esposo.
Reinava uma santa paz naquele casal, que soubera substituir os fogos da
paixo pela reciprocidade da confiana e da estima.
A conversa com a dona da casa roubou algum tempo s moas, segundo a
expresso do coronel. Era necessrio que Flix se dividisse com as
senhoras que ainda tinham amor aos exerccios coreogrficos. Recusou,
pretextando a presena de D. Matilde.
 Oh! por mim no! respondeu a boa senhora; o direito das velhas tem um
limite no direito das moas. V, doutor, e mais tarde volte c, se o no
agarrarem por a...
Valsava-se. Flix levantou-se e foi buscar um par. No tendo preferncia
por nenhuma senhora, lembrou-lhe ir pedir a filha do coronel.
Atravessava a sala para ir busc-la defronte, quando foi abalroado por
um par valsante. Conquanto fosse navegante prtico daqueles mares, no
pde evitar o turbilho. Susteve o equilbrio com rara felicidade e foi
procurar melhor caminho, costeando a parede. Nesse momento os valsantes
pararam perto dele. Pareceu-lhe reconhecer Lvia, irm de Viana. Com as
faces avermelhadas e o seio ofegante, a moa pousava molemente o brao
no brao do cavalheiro. Murmurou algumas palavras, que Flix no pde
ouvir, e depois de lanar um olhar em roda de si, continuou a valsar.
Durou isto minutos.
Flix, apenas se achou livre, foi buscar a filha do coronel,
interessante criana de dezessete anos, figura delgada, rosto anglico,
formas graciosas, toda languidez e eflvios. Era uma dessas mulheres que
fazem o mesmo efeito que um vaso de porcelana fina; toca-se-lhes com
medo de as quebrar. Raquel era o seu nome; tinha grandes pretenses a
mulher, que lhe no ficavam mal naquela idade de transio; mas o que
Flix lhe achava melhor era justamente o seu aspecto de criana, mal
disfarado pela formao do seio. Como carter, fazia-lhe a me grandes
elogios, e eram fundados, posto fossem de me.
Raquel aceitou o convite. Flix passou-lhe o brao  roda da cintura, e
ela estremeceu da cabea aos ps; depois entregou-se-lhe toda, com
aquele abandono que a valsa prescreve ou permite, e voaram pela sala no
turbilho geral. A agitao coloriu um pouco as faces da moa, comumente
descoradas. Quando pararam estava ofegante.
 Sentemo-nos, disse Flix.
 No; passeemos um pouco. Por que no aparece c?
 Receio no os encontrar; esto sempre fora...
 No; h dois meses estamos na cidade. Mame diz que j no est para
estas viagens contnuas, e eu acho que tem razo. Tambm me cansam a
mim; o mais infludo  papai.
 No gosta da roa?
 Eu no tenho preferncias; gosto tanto da roa como da cidade;
contudo... dou-me melhor c. Est olhando para aquela moa? no a acha bonita?
 Quem? Eu no olhava para ningum.
 Pois fazia mal; porque valia a pena olhar. Lvia  a rainha da noite.
Conquanto Raquel, na opinio de Flix, fosse uma menina, no deixou este
de estranhar que to facilmente cedesse a realeza da noite a outra
mulher; mas, por outro lado, refletia que esta abdicao bem podia ser
uma afetao de modstia. Contudo, o lmpido olhar da moa revelava a
mais absoluta ingenuidade. Fez-lhe um cumprimento  beleza dela, e
entrou a admirar de longe a beleza de Lvia.
Lvia tinha efetivamente um ar de rainha, uma natural majestade, que no
era rigidez convencional e afetada, mas uma grandeza involuntria e sua.
A impresso de Flix foi boa e m; achou-lhe uma beleza deslumbrante,
mas pareceu-lhe ver atravs daquele rosto senhoril uma alma altiva e
desdenhosa.
 Ser a rainha da noite, disse ele voltando-se para Raquel; mas no
serei eu quem lhe faa a corte.
 Por qu?
 Parece-me orgulhosa; h de tratar a todos como vassalos seus. No v
com que desdm ouve ela as palavras do cavalheiro que lhe d o brao?
O cavalheiro era o mesmo rapaz que valsara com a viva, um Dr. Batista,
descendente em linha reta do Leonardo de Cames, manhoso e namorado.
 Oh! isso no  razo, disse Raquel; Lvia no gosta dele.
Pouco tempo depois foi servida a ceia, Flix dirigiu-se para uma sala
interior, onde o coronel tinha os livros, e que servia temporariamente
de refgio aos fumantes. Flix acendeu um charuto e comeou a correr os
olhos pelos livros.
Ali foram ter alguns rapazes que falaram entusiasticamente da irm de
Viana. Era o objeto de todas as atenes da noite. E foi no meio das
apologias daqueles cortesos da beleza, que ela apareceu pelo brao do
coronel, atravessando a sala, para ir ter ao toucador.
 Doutor! disse Viana, aproximando-se de Flix.
E voltando-se para a irm:
 O Dr. Flix quer falar-te.
 Ah! disse a moa, voltando-se para o mdico.
Flix aproximou-se.
 No sei se se lembra de mim? perguntou ele.
 O Dr. Flix? Perfeitamente: foi-me apresentado h muito tempo, mas eu
tenho boa memria. Demais, s se esquecem as pessoas vulgares.
Flix agradeceu-lhe o cumprimento. Ela estendeu-lhe a ponta dos dedos
elegantemente apertados na pelica da luva. Trocaram algumas palavras
mais. Da a pouco, tendo-se ouvido o preldio de uma quadrilha, toda a
gente se retirou. Ficaram na sala Flix e Moreirinha.
Moreirinha tinha cerca de trinta anos, um bigode espesso, uma aparncia
agradvel e um esprito frvolo. Confessou que estava impressionado pela
viva, mas que eram muitos os seus rivais.
 Mas no so temveis esses rivais? perguntou Flix.
 No; um apenas.
 Qual?
 O Batista.
  o que est nas graas?
 No sei; mas  o mais valente de todos, e o que dispe de mais tempo,
posto seja casado.
 Casado?
 Com um anjo.
Flix procurou reanimar o pretendente, pondo em relevo todas as suas
qualidades merecedoras de admirao. Inventou-lhe algumas que no tinha;
reconheceu-lhe outras que possua realmente, inda que de um merecimento
relativo ou duvidoso. No se podia negar a influncia de Moreirinha
entre senhoras. Era ele galanteador por ndole e por sistema; tinha,
alm disso (coisa importante) a plena convico de que a sua conversa
era preferida pelas damas. Ningum melhor do que ele sabia lisonjear o
amor-prprio feminino; ningum prestava com mais alma esses leves
servios de sociedade, que constituem muita vez toda a reputao de um
homem. Dirigia os piqueniques, comprava o romance ou a msica da moda,
encomendava os camarotes para as representaes de celebridades, levava
os pianistas aos saraus, tudo isso com um modo to servial que era de
se ficar morrendo por ele.
Flix voltou  sala quando se danavam os ltimos passos da quadrilha.
Lvia estava esplndida de graa e elegncia. Nenhuma afetao nem
acanhamento; seus movimentos eram a um tempo desembaraados e modestos.
O mdico procurou ver se o doutor pretendente estaria nas graas da
moa; mas ele danava do mesmo lado em que ela estava; os olhares no
podiam encontrar-se. Um sobrinho do coronel indicou-lhe a mulher do
Batista; era uma moa de vinte anos, loura, assaz bonita e digna de
inspirar amores. Por que motivo, o marido, casado h pouco, queria ir
queimar a um templo estranho os perfumes que a esposa merecia?
Algum tempo depois de finda a quadrilha, disps-se Flix a deixar a casa
do coronel, que lhe interceptou a passagem em nome, disse ele, da mulher
e das moas. Flix respondeu-lhe que estava incomodado.
 Pretextos de peraltice, disse o velho, rindo alegremente; no o deixo
sair nem que me caia morto na sala. Faz favor, minha senhora?
Estas ltimas palavras eram dirigidas  irm de Viana que ia
atravessando a saleta onde se achavam os dois.
 Que me quer, coronel? disse ela parando.
 Um favor apenas. Retenha-me este senhor, que se quer ir embora. No
tenho foras para tanto. Veja se mo consegue. Comece dando-lhe uma
quadrilha.
 Dou-lhe a prxima, que  a minha ltima.
 Tambm se vai embora?
 Tambm.
  uma debandada geral. Vou mandar trancar as portas.
O coronel afastou-se depois desta ameaa. Flix deu o brao a Lvia e
foram sentar-se num sof que ficava prximo.
 Meu irmo  muito seu amigo, disse Lvia acomodando as ondas de seda
do vestido. Fala-me muito do senhor.
  muito meu amigo, repetiu Flix, fazendo interiormente uma careta.
 No admira, observou ela; o senhor merece ser estimado.
 Como sabe disso?
 Todos o afirmam.
 Nem todos sero sinceros, observou Flix.
Flix no se iludia a respeito da estima de Viana. Sem negar que o irmo
da viva lhe tivesse alguma amizade, dava-lhe, todavia, limitado valor.
Lvia asseverava, entretanto, que o irmo falava dele com grande
entusiasmo, e at certo ponto o entusiasmo era sincero. Flix tinha
sobre Viana certa ascendncia moral; alm disso, era um homem franco e
hospedeiro, rude mas servial.
Dentro de pouco tempo a conversa entre o mdico e a viva foi perdendo a
frieza cerimoniosa do comeo. Passaram a falar do baile, e Lvia
manifestou com expansiva alegria as suas excelentes impresses,
sobretudo porque, dizia ela, vinha da roa, onde tivera uma vida reclusa
e monstica. Falaram naturalmente da viagem que ela pretendia fazer.
Confessou ela que era um desejo antigo e vrias vezes diferido.
 No pense, acrescentou Lvia, que me seduzem unicamente os esplendores
de Paris, ou a elegncia da vida europia. Eu tenho outros desejos e
ambies. Quero conhecer a Itlia e a Alemanha, lembrar-me da nossa
Guanabara junto s ribas do Arno ou do Reno. Nunca teve iguais desejos?
 Estimaria poder faz-lo, se me suprimissem os incmodos da viagem; mas
com os meus hbitos sedentrios dificilmente me resolveria a isso. Eu
participo da natureza da planta; fico onde nasci. V. Ex. ser como as
andorinhas...
 E sou, disse ela reclinando-se molemente no sof; andorinha curiosa de
ver o que h alm do horizonte. Vale a pena comprar o prazer de uma hora
por alguns dias de enfado.
 No vale, respondeu Flix, sorrindo; esgota-se depressa a sensao
daquele momento rpido; a imaginao ainda pode conservar uma leve
lembrana, at que tudo se desvanece no crepsculo do tempo. Olhe, os
meus dois plos esto nas Laranjeiras e na Tijuca; nunca passei destes
dois extremos do meu universo. Confesso que  montono, mas eu acho
felicidade nesta mesma monotonia.
Lvia entrou a combater isto que lhe parecia um insigne paradoxo, mas
sem que nenhuma de suas palavras mostrasse a mais leve sombra de
pedantismo. Tinha uma maneira natural e simples de dizer as coisas menos
vulgares deste mundo. Sabia exprimir as suas idias em frase elegante,
mas despretensiosa.
O preldio de uma valsa chamou a ateno dos dois para o baile. Flix
convidou-a para valsar; ela desculpou-se, dizendo que se achava cansada.
 Vi-a valsar, quando entrei, disse Flix, e afirmo que poucas pessoas
valsaro to bem. Creia na sinceridade do elogio, porque eu no os fao
nunca.
A moa aceitou este cumprimento com ingnua satisfao.
 Gosto muito da valsa, disse ela. No admira;  a primeira dana do
mundo
 Pelo menos  a nica dana em que h poesia, acrescentou Flix. A
quadrilha tem certa rigidez geomtrica; a valsa tem todo o abandono da
imaginao.
 Justamente! exclamou Lvia, como se Flix lhe tivesse reunido em
poucas palavras todas as suas idias a respeito daquele assunto.
 Demais, continuou o doutor, animado pelo entusiasmo da viva, a
quadrilha francesa  a negao da dana, como o vesturio moderno  a
negao da graa, e ambos so filhos deste sculo, que  a negao de tudo.
 Oh! murmurou ela sorrindo.
E o protesto no foi s com os lbios, foi tambm com os olhos  uns
olhos aveludados e brilhantes, feitos para os desmaios de amor. Flix
comeou a sentir-se bem ao lado daquela moa, e esquecendo de boa
vontade a festa em que s aparentemente figurava, ali se demorou longo
tempo com ela, alheio aos comentrios estranhos, todo entregue ao
capricho do seu prprio pensamento.
Todavia, escapou-lhe, no meio da conversa, no sei que frase de
melanclico cepticismo que fez estremecer a moa. Lvia olhou para ele e
depois para o cho, parecendo to absorta que nem deu pelo silncio que
se seguiu ao seu gesto e s palavras de Flix. Este aproveitou a
circunstncia para examin-la melhor.
Lvia representava ter vinte e quatro anos. Era extremamente formosa;
mas o que lhe realava a beleza era um sentimento de modesta conscincia
que ela tinha, de suas graas, uma coisa semelhante  tranqilidade da
fora. Nenhum gesto seu revelava o amor-prprio geralmente inseparvel
das mulheres bonitas. Sabia que era formosa, mas tinha para si que, se a
natureza se havia esmerado com ela, era por uma razo de harmonia e de
ordem nas coisas terrestres. Afeiar as suas graas, parecia-lhe um
crime; tirar orgulho delas, frivolidade.
Flix examinou-lhe detidamente a cabea e o rosto, modelo de graa
antiga. A tez, levemente amorenada, tinha aquele macio que os olhos
percebem antes do contato das mos. Na testa lisa e larga, parecia que
nunca se formara a ruga da reflexo; no obstante, quem examinasse
naquele momento o rosto da moa veria que ela no era estranha s lutas
interiores do pensamento: os olhos, que eram vivos, tinham instantes de
languidez; naquela ocasio no eram vivos nem lnguidos; estavam parados.
Sentia-se que ela olhava com o esprito.
Flix contemplou-lhe longo tempo aquele rosto pensativo e grave, e
involuntariamente foram-lhe os olhos descendo ao resto da figura. O
corpinho apertado desenhava naturalmente os contornos delicados e
graciosos do busto. Via-se ondular ligeiramente o seio trgido,
comprimido pelo cetim; o brao esquerdo, atirado molemente no regao,
destacava-se pela alvura sobre a cor sombria do vestido, como um
fragmento de esttua sobre o musgo de uma runa. Flix recomps na
imaginao a esttua toda, e estremeceu. Lvia acordou da espcie de
letargo em que estava. Como tambm estremecesse, caiu-lhe o leque da
mo. Flix apressou-se apanhar-lho.
 Obrigada, murmurou ela distrada.
Depois parecendo envergonhada daquele longo silncio, pretextou um
incmodo nervoso; levantaram-se e dirigiram-se ao salo. Ali, no meio da
conversa e do bulcio, readquiriu ela o imprio de si mesma, e
conversaram largamente com volubilidade e galanteria. A viva era um
pouco sarcstica, mas daquele sarcasmo benvolo e andino, que sabe
misturar espinhos com rosas. Pela primeira vez Flix a conhecia,
porquanto apenas a tinha visto duas vezes, e no bastava ver uma mulher
para conhecer,  preciso ouvi-la tambm; ainda que muitas vezes basta
ouvi-la para a no conhecer jamais.
Lvia demorou-se em casa do coronel mais tempo do que prometera, milagre
devido ao doutor, dizia Viana. O certo  que o resto da noite quase no
existiram para ningum mais.
No passou isto sem que o notassem alguns lbios despeitados. Um
cavalheiro disse a uma senhora:
 No lhe parece que D. Lvia tem um gosto deplorvel?
A senhora arregaou levemente a ponta esquerda do lbio superior, e
respondeu:
 O Flix no o tem melhor.
A viva saiu no meio de um geral murmrio de curiosidade. Flix no se
demorou muito tempo mais; meteu-se no carro e foi para as Laranjeiras.
Uma hora depois o baile, a viva, a dana, tudo se lhe desvaneceu do
esprito, graas a um sono tranqilo e profundo, como essas nuvens
douradas do ocaso que a noite absorve ou dissipa.
IV
Preldio
No dia seguinte partiu Flix para a Tijuca, onde tinha uma casa de
recreio e refgio; regressou duas semanas depois. Durante esse tempo
nada soube do que ocorrera na cidade: no leu jornais nem abriu cartas
de amigos.
Alguma coisa, entretanto, havia ocorrido: a primeira notcia com que o
saudaram os amigos, apenas ele chegou  cidade, foi que Ceclia
conquistara o corao de Moreirinha.
O sucessor de Flix, pouco depois que este chegou, no deixou de lhe ir
participar a sua boa fortuna, no sei se por fatuidade, se por despicar
a dama.
 Dou-lhe os meus parabns, respondeu Flix, conquistou uma rapariga
sossegada, carinhosa, capaz de o compreender.
 Tanto melhor! acudiu o rapaz. O que me faltava era isso mesmo: uma
mulher que me compreendesse. Ceclia no  positivamente uma alma
perdida; no est na linha dessas outras mulheres com quem tenho
despendido o meu dinheiro sem colher nada mais que alguns tardios
remorsos.  uma moa de bons sentimentos, conserva certa dignidade no
vcio, tem uma alma nobre, elevada...
Este panegrico durou alguns minutos mais. Dentro de to pouco tempo
descobrira-lhe Moreirinha qualidades desconhecidas para o antecessor.
Seria mais nscio ou mais perspicaz? Ceclia no era hipcrita quando
dizia gostar de um homem; qualquer que fosse a natureza dos seus afetos,
ela os sentia sinceramente; mas era raro que sobrevivessem vinte e
quatro horas  causa que lhos inspirara. No se lhe desmentira a
constncia durante os seis meses de intimidade com Flix; mas se ela era
amante para querer a um s homem, era independente para o esquecer
depressa. Tinha uma fidelidade filha do costume; a sua mxima era no
esquecer o amante presente, no recordar o amante passado, nem se
preocupar com o amante futuro.
Moreirinha era o amante presente; podia contar com a fidelidade da
rapariga, ao menos com as suas boas intenes.
Quando Meneses soube deste desenlace ficou atnito. Julgou a princpio
que era apenas uma afetao de Moreirinha; mas logo verificou que no.
Foi ter com o mdico.
 Meu amigo, disse, peo-te que me desculpes a carta ridcula que te
escrevi.
 Que carta?
 A respeito de Ceclia. Nunca pensei que fossem fingidas aquelas
lgrimas que me entraram pelo corao. Aprendi a no crer to
superficialmente.
 No aprendeste coisa nenhuma, retorquiu Flix, encolhendo os ombros;
no  em terra que se fazem os marinheiros, mas no oceano, encarando a
tempestade.
O episdio dos amores de Ceclia foi assunto de conversa no crculo dos
rapazes que aqueles freqentavam. Nem tardou que passasse alm. No fim
de algum tempo, pouca gente ignorava que a moreninha que passeava todas
as tardes em carro descoberto pela praia de Botafogo era o altar em que
o Moreirinha fazia os seus sacrifcios dirios e pecunirios. Flix
admirou-se ao princpio desta mania de passear to contrria aos hbitos
preguiosos de Ceclia; mas atinou logo com a chave do enigma.
Moreirinha no compreendia o que era ser feliz sem publicidade. Para
ele, a ilha de Citera no podia ser jamais a ilha de Robinson.
Entretanto, passara um ms desde o sarau do conselheiro. Flix no se
havia aproveitado do convite que a viva lhe fizera, nem cedido s
instncias de Viana. Encontrou-os, porm, uma noite no Ginsio. Estava
ele nas cadeiras quando os viu num camarote da segunda ordem. No fim do
segundo ato Flix subiu no camarote.
Teve excelente recepo, posto que a viva, sem deixar de ser corts e
graciosa, parecia um pouco reservada e preocupada. No falava com a
mesma volubilidade da noite do baile. Esquecia-se s vezes de si e dos
outros. Duas vezes lhe aconteceu dar uma resposta sem pergunta e deixar
uma pergunta sem resposta.
A conversa, portanto, no foi muito animada. Felizmente Viana
encarregou-se de preencher os intervalos com a sinfonia das suas reflexes.
Quando se levantou o pano para o terceiro ato, Flix quis sair, mas
tanto a viva como o irmo pediram-lhe que ficasse. Aceitou o convite e
ficou. Do que houve em cena durante esse ato pode-se afirmar que Flix
nada soube absolutamente. O ato era curto, e Flix empregou todo o tempo
em observar a moa, que, molemente reclinada na cadeira, acompanhava
distrada o dilogo dos atores.
 Em que estar pensando esta moa? dizia Flix consigo. Evidentemente,
no lhe importam os suspiros do gal, nem as faccias do gracioso. Olha,
mas no v a cena. Estar  espera de algum namorado remisso? Mas quem 
ento esse lorpa que deixa entristecer uns olhos to bonitos?
A ingnua da pea, que desde o ato anterior se sabia estar apaixonada
pelo gal, como  de jeito no teatro e no mundo, entrou precipitadamente
em cena e lanou-se nos braos do amado. Algumas palmas do pblico
premiaram essa resoluo inesperada e enrgica. Ento comeou entre a
dama e o gal um dilogo de sentimento e paixo, um duelo de suspiros,
um protestar de fidelidade e constncia, que a platia ouviu com
demonstraes de entusiasmo.
 Ama, no h dvida, continuou Flix a dizer entre si; basta ver como
lhe brilham os olhos a cada frase do dilogo. Agradam-lhe os protestos
do namorado e as lgrimas da dama. Creio que sorri;  de aprovao. Oh!
como est divina!
Enfim, caiu o pano; e a viva, que j no fim do ato, parecera ter
voltado  sua anterior preocupao, levantou-se, dizendo que se ia embora.
Viana pediu-lhe para ficar at o fim da pea; ela insistiu, e era
foroso ceder. Flix acompanhou-os at o carro.
 At quando? perguntou Lvia, aceitando a mo que Flix lhe oferecia.
 At breve.
Seria acaso ou iluso? Flix sentiu uma forte presso dos dedos da moa,
enquanto esta subia rapidamente para o carro, e ia responder com um
aperto ainda mais forte; mas era tarde; a moa j estava sentada, e
Viana punha o p no estribo para subir.
Iluso era decerto; iluso ou casualidade. Mas o mdico no o percebeu
logo, e foi um primeiro erro na maneira de julgar a viva.
Poucos dias depois do encontro no teatro, dirigiu-se Flix a Catumbi
onde eles moravam. No os achou. Quando Lvia voltou para casa soube da
visita de Flix pelo carto que a mucama lhe deu. To apressadamente
descalou as luvas que as rasgou; e como o irmo fizesse um reparo a
este respeito, a moa respondeu com azedume. Viana estava acostumado s
asperezas da irm, levantou os ombros e saiu.
Flix encontrou-a dois dias depois na rua do Ouvidor, fazendo compras
para a viagem.
 Se adivinhasse a sua visita, no teria sado de casa, disse a viva.
Flix inclinou-se.
 Por outro lado, estimo ter estado fora; morando eu to longe, no
teria o prazer de receb-lo segunda vez, e nesse caso antes nada.
 O tlburi encurta as distncias, observou Flix; procurarei
desempenhar-me da obrigao em que estou.
 Da obrigao j se desempenhou; agora...
 Perdo; o seu cumprimento constitui uma obrigao nova.
Despediram-se.
Meneses, que estava na calada oposta, durante as poucas palavras
trocadas entre Flix e a viva, atravessou a rua e veio ter com o amigo.
 Quem  aquela moa?
  a irm do Viana.
 Bravo!  lindssima.
  realmente bonita, o que lhe merece a admirao geral. V como todos
lhe esto com os olhos em cima...
 Se no h indiscrio, disse Meneses depois de a ver entrar em uma
loja, queimas os teus perfumes naquele altar?
 No. Para qu?
 Talvez algum casamento incubado...
 Casar?... disse Flix rindo. A pergunta  to original que merece um
sorvete. Vem ao Carceler.
No Carceler contou-lhe Menezes que andava incomodado e triste. Vivia ele
maritalmente com uma prola que pouco antes encontrara no lodo. Na
vspera descobrira em casa vestgios de outro amador de pedras finas.
Estava certo da infidelidade da amante; pedia-lhe conselho.
 No te dou conselho nenhum, respondeu o mdico; resolve tu mesmo.
 Mas, se eu pudesse resolver alguma coisa no estado em que estou, no
viria falar a um amigo...
 Lisonjeia-me a escolha; mas no passa disso. Imita-me, se podes; mas
no me peas reflexes.
 Mas, no meu caso, que farias tu?
 Coisa nenhuma; pegava no chapu e saa.
 E se o no pudesse fazer sem dor?
 Hiptese absurda.
 Para ti.
 Naturalmente.
Houve uma pausa.
 Dou-te enfim um conselho, disse Flix.
Meneses levantou os olhos com ansiedade.
 Qualquer que seja a resoluo que tomares, continuou Flix, no recues
um passo.
 Onde acharei esta resoluo?
 Aqui, disse Flix pondo-lhe o dedo na testa.
 Oh! no! suspirou Meneses; a cabea nada tem com isto; todo o mal est
no corao.
 Recorre  cirurgia: corta o mal pela raiz.
 Como?
 Suprime o corao.

V
Fico
Dois dias depois, estando Flix a vestir-se para ir a Catumbi,
entrou-lhe Meneses por casa. Vinha plido e abatido, olhos vermelhos,
passo trmulo. No se sentou, deixou-se cair numa cadeira.
 Que  isso? perguntou Flix.
 Est tudo acabado, respondeu ele; romperam-se os vnculos fatais.
Custou-me muito, mas era necessrio; foi agora h pouco; corri para c;
precisava de algum com quem desabafasse. Isto  ridculo, bem sei; mas
que queres? Eu sofro... tenho um corao miservel, e deixo-me levar por
ele...
Flix pareceu condoer-se da situao do rapaz, e disse-lhe algumas
palavras de animao, que ele ouviu com reconhecimento.
 Eu j desconfiava, disse Meneses, de que era trado; s tive a certeza
ontem. O que mais di em tudo isto, continuou ele depois de alguns
instantes de silncio,  que, para servir ao homem que me traiu,
desfazia-me eu em obsquios, e at, confesso-te aqui, era seu credor.
  por isso que eu no empresto dinheiro  ningum, respondeu Flix,
penteando as suas.
 Mas quem pode adivinhar o mal, quando nos apresentam uma fisionomia
risonha? Eu confiava em ambos.
Flix encolheu os ombros.
 Toma um charuto, disse.
 No quero fumar.
 Fuma; eu j observei que o fumo impede as lgrimas, e ao mesmo tempo
leva ao crebro uma espcie de nevoeiro salutar.
 Vais sair? perguntou Meneses, vendo que o outro punha o chapu na
cabea.
 Vou  casa do Viana. Queres vir?
 No posso.
 Devias vir comigo; apresentava-te  irm dele, e passvamos algumas
horas em companhia amvel. Esquecerias depressa as tuas penas.
Meneses recusou; Flix levou-o no carro at  rua do Lavradio, onde ele
morava.
Em caminho conversaram dos seus extintos amores. Meneses jurava que era
a ltima aventura a que expunha o seu corao; achava-se curado de uma
vez.
 No afirmes nada, Meneses; podes errar. Sabes o que te falta? Tmpera.
Amanh, entre duas lgrimas, aparece-te um raio de sol, e eis-te de novo
namorado, confiado e arriscado.
 Oh! no! protestou Meneses.
 Quem dera que no! Mas eu estou a ler no teu rosto que a nica maneira
de te consolar deste naufrgio  dar-te outro navio. S muito tarde te
convencers de que viver no  obedecer s paixes, mas aborrec-las ou
sufoc-las. Os maricas, como tu, choram; os homens, esses ou no sentem
ou abafam o que sentem. Isto no tem rplica, meu... amigo, diria eu, se
me no lembrasse do teu afortunado rival, que  positivamente um
mariola. Vem  casa do Viana; hs de gostar da Lvia; parece-se contigo.
 No posso, respondeu Meneses, que s ouvira as ltimas palavras de
Flix.
 Mas hs de ir depois?
 Sim, depois.
 E se te apaixonas por ela?
Meneses sorriu tristemente; o carro parou; despediram-se um do outro, e
Flix seguiu para Catumbi.
Lvia estava s em casa. Fora convidada a um jantar, mas respondeu
pretextando um incmodo que no tinha. O irmo encarregou-se de ir
represent-la.
 Tinha o pressentimento, disse ela depois de referir estas coisas ao
doutor, tinha o pressentimento de que o senhor vinha c hoje, e no
desejava que lhe acontecesse a mesma coisa que da primeira vez.
 E acredita em pressentimentos? perguntou Flix.
 No os explico, mas acredito neles.
Lvia parecia mais bela que das outras vezes. No s a luz natural dizia
melhor com a sua tez, como tambm a simplicidade do vesturio era para
ela um realce. Flix no dissimulou a impresso que lhe causava aquele
novo aspecto da moa. Lvia, que, como toda a mulher bela, e posto no
fosse vaidosa, sabia mirar-se na fisionomia dos outros, no deixou de
perceber a impresso do doutor.
A cena da portinhola do carro no havia sado do esprito de Flix, que
se convencera de duas coisas: primeiro, que a viva gostava dele;
depois, que era fcil triunfar da viva. As aparncias davam fundamento
 opinio de que a moa o amava. Flix aproveitou a situao e disps-se
a tirar dela todo o proveito possvel. Pouco se demorou, entretanto,
naquele dia. Quando anunciou que se ia embora, pediu-lhe a viva que no
esquecesse a casa.
 Aproveitarei o tempo, observou Flix, enquanto no embarcam para a
Europa. Seu irmo diz-me que a viagem  breve.
 Se no houver transtorno. Em todo caso, venha, e no faa visitas de
mdico.
 Eu fui mdico; fiquei com esse costume, respondeu Flix sorrindo.
 J no  mdico?
 Do corpo, no.
 Mas da alma?
 Talvez. Deixei agora mesmo um doente da alma, que eu desejaria
apresentar-lhe, porque estes ares do sade, creio eu.
 De que sofre o seu doente?
Flix sorriu-se.
 Vtima de uma inconstncia, molstia vulgar. Est no perodo agudo. 
um pobre rapaz, inocente e singelo, que vai buscar as regras da vida nos
compndios da imaginao. Maus livros, no lhe parece?
Lvia no respondeu; estava embebida a ouvi-lo.
 Menezes no conhece outros, continuou Flix. Parece filho daquele
astrlogo antigo que, estando a contemplar os astros, caiu dentro de um
poo. Eu sou da opinio da velha, que apostrofou o astrlogo: Se tu no
vs o que est a teus ps, por que indagas do que est acima da tua
cabea?
 O astrlogo podia responder, observou a viva, que os olhos foram
feitos para contemplar os astros.
 Teria razo, minha senhora, se ele pudesse suprimir os poos. Mas que
 a vida seno uma ambio de astros e poos, enlevos e precipcios? O
melhor meio de escapar aos precipcios  fugir aos enlevos.
Lvia ficou pensativa alguns instantes.
 O pensamento  melanclico, disse ela; contudo pode ser verdadeiro.
Mas por que razo condenaremos a vida contemplativa dos que no conhecem
a vida positiva? Os livros da imaginao... esses livros no so
detestveis, como o senhor disse; no os h detestveis nem timos. Deus
os d conforme a cincia de cada um.
Flix despediu-se de Lvia, no enlevado, no palpitante, mas disposto a
uma aventura. Amiudou as suas visitas a Catumbi, a grande aprazimento de
Viana, que suspeitou alguma afeio entre os dois, e imaginara uma
aliana de famlia.
A presena de Flix era at vantajosa naquela casa. Entre a viva e o
irmo havia um abismo. Eram dessemelhantes nos sentimentos, nos hbitos
de viver, ria maneira de pensar. Lvia tinha alternativas de afabilidade
e rispidez, ao passo que o irmo era de uma inaltervel paz de esprito.
Viana tinha coisas ms e boas, sendo que as coisas boas eram justamente
as que se opunham ao gnio especulativo da viva. Era homem
essencialmente prtico; o seu reino era todo deste mundo. Apesar das
suas pretenses a rapaz estouvado e extravagante, tinha hbitos de ordem
e economia. Lvia era a este respeito negligente e meia doida, como
lhe chamava o irmo; alheava-se muitas vezes das coisas que a cercavam
para subir a um mundo superior e quimrico. O mdico era entre ambos uma
espcie de mediador plstico. No pertencia  esfera de nenhum deles,
mas sabia a maneira de os conciliar.
Flix encontrou algumas vezes em Catumbi o Dr. Batista, que ele vira
danar com a viva em casa do coronel. Lvia no parecia prestar-lhe
ateno, nem o pretendente magoar-se por isso. Era um modelo de
dissimulao e clculo. Conhecia todos os artifcios da campanha
amorosa, a indiferena, o desdm, o entusiasmo, e at a resignao.
Uma noite em que saram de l juntos, Flix procurou sondar-lhe o
esprito a respeito da moa.
 Nada h, respondeu Batista com indiferena; nem eu pretendo
cortej-la. Mas, se o pretendesse, triunfaria; a pacincia  a gazua do
amor.
 No lhe parece que essa sua mxima  imoral?
 Efetivamente  assim; mas  por isso mesmo que estes amores so
deliciosos.
Quinze dias depois apareceu Viana em casa de Flix. Deu-lhe parte de que
a irm j no ia para a Europa.
 Por que motivo? perguntou Flix.
  justamente o que eu desejava saber, disse Viana com um gesto de mal
contido despeito; mas estou certo de que no o saberei jamais. Aquela
minha irm no me parece ter a cabea no seu lugar.
 Alguma razo haveria. Estar doente?
 Est de perfeita sade.
 Quem sabe se... algum namoro?
 J pensei nisso, disse Viana; pode ser algum namoro.
 Naquela idade as paixes so soberanas. Seria intil querer
dissuadi-la, e ainda que no fosse intil, seria desarrazoado, porque
uma viva moa... Ela amava muito o marido, no?
 Antes de casar, muito; trs meses depois, muitssimo; ao cabo de
alguns meses, nem muito nem pouco. Toda essa histria  mistrio para
mim...
 No lhe vejo mistrio nenhum; o casamento  justamente isso: acalma os
afetos para os tornar mais duradouros. Se a paixo de sua irm se tornou
mais calma...
 No se trata disso. Lvia no amava menos; aborrecia o marido... Mas
por que nos demoraremos nestas coisas que no podemos explicar? A nica
explicao que lhe acho  o seu carter esquisito. O senhor no imagina
bem que eterna variao de gnio  aquela moa. H dias em que se
levanta meiga e alegre, outros em que toda ela  irritao e melancolia.
Ningum a entende, e eu menos que ningum.
 No esteja o senhor a exagerar uma coisa naturalssima. Todos temos
essa mesma alterao de humor. H manhs tristes e aziagas. Quer que lhe
d um conselho? No a contrarie nunca,  o melhor.
 Mas o senhor h de concordar que quando a gente j preparava os beios
para ir saborear a vida parisiense...
 H tempo para tudo, disse Flix, e o senhor ainda est moo. Iremos
juntos daqui a um ano.
 Palavra?
 Palavra.
VI
Declarao
 Ento, j no vai para a Europa? perguntou Flix  viva nessa mesma
tarde.
 Quem lho disse?
 Seu irmo.
 Desfiz a viagem, bem contra a vontade dele, que me chamou caprichosa e
no sei que mais. Talvez tenha razo. Eu mesma no me entendo s vezes.
Esta viagem, que era um desejo ardente, acha-me agora fria. Que lhe
parece isto?
 Alguma razo h de haver, ponderou o mdico; e eu sentiria se o
motivo...
 Se o motivo? repetiu a moa.
Calaram-se e ficaram algum tempo a olhar um para o outro. A explicao,
que j os lbios no pediam nem davam, comearam a pedi-la e a l-la os
olhos de ambos.
Lvia abaixou os seus.
 Vamos para o terrao, disse ela por fim; a tarde est bonita.
A tarde estava realmente linda. Flix, entretanto, cuidava menos da
tarde que da moa. No queria perder o ensejo de lhe dizer, como se fora
verdade, que a amava loucamente. Encostada ao parapeito do terrao que
dava para a chcara, a viva simulava contemplar os esplendores do
ocaso; na realidade, afiava o ouvido para escutar a confisso amorosa.
Flix olhava para ela e no ousava romper o silncio. Quase a soltar dos
lbios a palavra decisiva, a si mesmo perguntava se ela no iria pesar
no seu destino mais do que imaginava ento, e se daquele capricho de
momento no resultaria o mal de toda a sua vida. Mas a hesitao foi
curta; Flix ia enfim lanar a sorte, quando um escravo apareceu no
terrao, a anunciar a vista do Dr. Batista.
 No quero falar a ningum, Joo, disse a moa; estou incomodada.
 Que resposta  essa? perguntou Flix, baixinho, quando o escravo
voltou as costas.
 Joo! disse a moa.
O escravo voltou.
 Eu hoje s posso receber as pessoas mais ntimas de casa, os amigos de
meu irmo. s outras dize que estou incomodada.
O escravo saiu.
 Adota esta explicao?
 Antes essa, respondeu Flix;  melhor para a senhora; sinto-a contudo
por mim; no quisera ser envolvido entre os ntimos da casa.
 Quer que eu corrija a ordem que dei?...
 No peo tanto; no tenho direito a isso; e todavia...
 E todavia?...
Houve um curto silncio.
 No me compreende? disse Flix Com voz quase sumida.
 Compreendo, murmurou ela, depois de uma pausa; mas receio enganar-me.
 No se engana, insistiu Flix com calor; amo-a, e seria impossvel
neg-lo, porque a minha voz e o meu rosto ho de t-lo dito melhor do
que as minhas palavras. No percebe isso h muito tempo? No adivinhou
j que a esperana do seu amor  para mim toda a felicidade de amanh?
Diga! diga uma palavra s, cruel ou benvola, mas uma e definitiva.
Lvia escutara-o enlevada, e a sua resposta foi mais eloqente que a
declarao do doutor; estendeu-lhe a mo trmula e fria, e embebeu nos
olhos dele um longo olhar de agradecimento e felicidade.
 Ama-me tambm? perguntou Flix depois de alguns minutos de muda
contemplao.
 Oh! muito! suspirou a moa.
E ambos ali ficaram silenciosos, ofegantes e namorados, nesse xtase
dulcssimo que  porventura o melhor estado da alma humana. Ambos,
porque o corao do mdico, naquele instante ao menos, palpitava com
igual fervor.
 Muito! repetiu Lvia, como se essa palavra fosse apenas um eco do seu
pensamento ou uma resposta  muda interrogao dos olhos do mdico.
Flix passou-lhe o brao  roda da cintura e puxou-a docemente para si;
depois segurou-lhe a cabea entre as mos, e inclinou os lbios para lhe
imprimir um beijo na fronte. Deteve-o um rumor estranho, uma voz
infantil e desconhecida.
Instantes depois apareceu no terrao um menino de cinco anos, criana
gentil e esperta, rosada e gorda, como os anjos e os cupidos que a arte
nos representa em seus painis.
 Mame! mame! gritava o pequeno, correndo a abraar-se com a me e
fugindo  mucana que vinha atrs dele.
Lvia recebeu a criana nos braos, beijou-a e p-la ao colo.
 Apresento-lhe meu filho, disse ela ao mdico; estava em casa da
madrinha; veio ontem para c.
E voltando-se para o menino:
 Lus, conheces o Dr. Flix?
O menino olhou para o mdico com a expresso pasmada e interrogativa das
crianas que vem uma pessoa pela primeira vez, e voltou-se para a me,
sem parecer impressionar-se muito. Lvia encheu-lhe as faces de beijos.
A criana, rindo de prazer, repeliu com as mozinhas aquela chuva de
carcias maternas.
 Ora bem, disse a viva, quem te deu ordem de andar a correr por aqui?
 Ningum, respondeu o menino, eu pedi a Clara para me deixar vir; ela
no quis, mas eu vim. No fiz bem, mame?
 Fizeste mal. Vai brincar, vai, mas no corras.
 Quem  este moo? perguntou Lus, olhando outra vez para Flix.
 J te disse:  o Dr. Flix.
 Ah!
Lus encarou o mdico; depois olhou para a me, e fez um gesto para
descer. Lvia p-lo no cho.
 Posso ir  chcara?
 Podes; leva-o, Clara.
Lus deitou a correr seguido pela mucama. A me acompanhou-o com os
olhos at v-lo desaparecer do terrao.
Durante esta cena, Flix parecera completamente estranho a tudo que o
rodeava. No ouvia as repreenses da moa, nem a tagarelice da criana;
ouvia-se a si mesmo. Contemplava aquele quadro com deliciosa inveja, e
sentia pungir-lhe um remorso.
  me, repetia o moo consigo;  me!
 Olhe, dizia a moa, debruada sobre o parapeito que dava para a
chcara; veja como ele vai correndo...
Flix debruou-se tambm; o menino corria efetivamente adiante de Clara
que o acompanhava de longe. De quando em quando, parava o menino
aguardando a mucama; mas to depressa esta se lhe aproximava, a criana
negaceava o corpo, e deitava a correr outra vez. A me parecia esquecida
de tudo mais; Flix contemplava-a com religioso respeito. Estiveram
assim calados alguns segundos. De repente Lvia voltou-se para o mdico:
 V? disse ela; a pouco se reduz a minha felicidade: o senhor e aquela
criana.
Dizendo isto, deixou pender a fronte; Flix beijou-a ardentemente, mas
no pde dizer nada. A comoo embargou-lhe a voz; a reflexo imps-lhe
silncio.
VII
O gavio e a pomba
Iniciando afoitamente esta aventura, era natural que Flix sasse de
Catumbi com a vaidade satisfeita de um triunfador. No era ele amado, e
amado sem esforo seu, sem resistncia nem combate? E a mulher que lhe
acabava de dar francamente o corao no tinha todas as qualidades que
podem seduzir um homem e lisonjear-lhe o amor-prprio?
Qualquer outro teria motivo de se julgar superior ao resto dos mortais;
mas era a natureza mesma da vitria que vinha travar a felicidade de
Flix. A que propsito interviria o corao neste episdio, que devia
ser curto para ser belo, que no devia ter passado nem futuro, arroubos
nem lgrimas?
 Fui longe demais, ia ele dizendo consigo; no devia alimentar uma
paixo que h de ser uma esperana, e uma esperana que no pode ser
outra coisa mais que um infortnio. Que lhe posso eu dar que corresponda
ao seu amor? O meu esprito, se quiser, a minha educao, a minha
ternura, s isso... porque o amor... Eu amar? Pr a existncia toda nas
mos de uma criatura estranha... e mais do que a existncia, o destino,
sei eu o que isso ?
Neste ponto, parece que alguma idia vaga e remota lhe surgiu no
esprito e o levou a uma longa excurso no campo da memria. Quando
voltou  realidade presente tinha o carro entrado no largo do Machado.
Apeou-se e seguiu a p para casa.
A viva tornou a ocupar-lhe o esprito. Recapitulou ento tudo o que se
passara em Catumbi, as palavras trocadas, os olhares ternos, a confisso
mtua; evocou a imagem da moa e viu-a junto dele, pendente de seus
lbios, palpitante de sentimento e ternura. Ento a fantasia comeou a
debuxar-lhe uma existncia futura, no romanesca nem legal, mas real e
prosaica, como ele supunha que no podia deixar de ser com um homem
inbil para as afeies do cu.
 E que outra coisa quer ela? dizia o mdico a si mesmo. Era, sem
dvida, melhor que houvesse menos sentimento naquela declarao, que
tivssemos navegado mais junto  terra, em vez de nos lanarmos ao mar
largo da imaginao. Mas, enfim,  uma questo de forma; creio que ela
sente da mesma maneira que eu. Devia t-lo percebido. Fala com muita
paixo,  verdade; mas naturalmente sabe a sua arte;  colorista. De
outro modo pareceria que se entregava por curiosidade, talvez por
costume. Uma paixo louca pode justificar o erro; prepara-se para errar.
No me anda ela a seduzir h tanto tempo?  positivo; mete-se-me pelos
olhos. E eu a imaginar que...
Quando Flix chegou a casa, estava plenamente convencido de que a
afeio da viva era uma mistura da vaidade, capricho e pendor sensual.
Isto lhe parecia melhor que uma paixo desinteressada e sincera, em que,
alis, no acreditava. No admira pois que ainda desta vez a lembrana
de Lvia lhe no perturbasse o sono, e que o primeiro claro da aurora,
atravessando os vidros da janela da alcova, alumiasse o rosto do mdico,
to grave e plcido como na vspera.
Flix voltou a Catumbi naquele mesmo dia. A viva estava radiante de
felicidade, trmula de alegria. Estendeu-lhe a mo, que ele apertou, no
palpitante como ela, mas cheio de delicadeza e graa. A presena de
Viana, alm disso, impedia qualquer outra manifestao exterior. O
parasita, que parecia empenhado em preparar uma aliana de famlia com o
mdico, disps-se a no ser cruel para os dois namorados; fechou os
olhos, cerrou os ouvidos, e, se em todo o caso foi importuno, no o
deveu  vontade, mas  situao, porque em tais circunstncias nem todo
o engenho de Voltaire pode fazer um homem interessante.
Amiudaram-se ainda mais as visitas de Flix, que ali encontrou algumas
vezes a famlia do coronel Morais, e outras, poucas, da intimidade de
Lvia. D. Matilde sentia entusiasmo pelo mdico; quanto a Raquel olhava
para ele com uma espcie de adorao. Dos homens alguns o detestavam
cordialmente, outros tinham-lhe medo, no raros inveja, e alguns poucos
simpatia.
Flix, entretanto, parecia indiferente aos sentimentos que inspirava, e
deste modo obedecia a um sistema no menos que  disposio do seu
esprito. O mesmo praticava em relao ao amor. Evitava, quanto podia,
animar as esperanas da moa, e posto soubesse a fundo a retrica da
paixo, no a empregava sem uma parcimnia, que lhe parecia economia
razovel.
Lvia, porm, no dissimulava nem hesitava; deixava transparecer no
rosto o que sentia no corao. Jogava com as cartas na mesa sem previso
nem clculo. Expansiva e discreta, enrgica e delicada, entusiasta e
refletida, Lvia possua esses contrastes aparentes, que no eram mais
que as harmonias do seu carter. Os prprios defeitos dela nasciam de
suas qualidades. Era crdula  fora de ser confiante, rspida com tudo
o que lhe parecia baixo ou ftil. Tinha a imaginao quimrica, s vezes
 o corao supersticioso, a inteligncia austera, mas compensava estes
defeitos, se o eram, por qualidades capitais e raras.
Um dia, em que ambos conversavam do nico assunto que lhes podia
interessar  pelo menos do nico que lhe interessava a ela,  Flix
pediu-lhe explicao de uma coisa que lhe parecia obscura.
 Obscura? repetiu Lvia.
 Lembra-se da noite em que a encontrei no Ginsio? disse o mdico.
Estava preocupada e alheia a tudo. Conversou mal e distrada,
interessavam-lhe as cenas amorosas, tudo mais parecia aborrec-la. No
fim do terceiro ato levantou-se e foi-se embora. Diz-me, entretanto, que
desde o sarau do coronel j comeava a sentir este amor que  a sua
vida. Pois bem, no estava eu l, a seu lado, no teatro?
 No.
 Oh!
 Estava outro homem, mui diverso deste que eu vejo agora ao p de mim,
porque ainda me no amava. Mas no era s isso; era mais. Pensa que os
seus atos, sentimentos e pessoa, no so objeto de comentrios estranhos?
 Importam-me to pouco os comentrios!
 Pois bem, falaram-lhe muito mal do seu corao naquele dia.
 Que lhe disseram desse viajante incgnito?
 Viajante? perguntou Lvia.
 Que foi, emendou Flix.
 Disseram-me muitas coisas ms.
 Deu-lhes crdito?
 No; mas fiquei triste. Eu estava acostumada a admir-lo de longe.
Conhecia-o pouco, mas meu irmo falava-me muita vez a seu respeito nas
cartas que me escrevia para Minas, e Raquel fazia coro com ele.
 Seu irmo tem certo entusiasmo por mim, disse Flix;  natural que
exagere os meus mritos. Quanto  filha do coronel,  uma criana, que
se acostumou a ver-me com olhos de irm mais moa.
 Quer ento que eu acredite antes nas coisas ms?
 Nem ms nem boas, Lvia; conhea-me primeiro; far depois juzo seguro.
 Oh! conheo-te! exclamou ela.
A entrada de Viana interrompeu o colquio. Flix dirigiu-se  mesa e
abriu um lbum, enquanto Viana referia  irm as peripcias de um jantar
a que assistira.
O lbum da viva, que o mdico abria pela primeira vez, estava j
alastrado de prosa e verso. Nem tudo era bom, como acontece nesses
livros, que so s vezes verdadeiros asilos de invlidos do Parnaso,
onde as musas reumticas e manetas vo soltar os seus gemidos. Uma
pgina havia que, lhe pareceu misteriosa; era uma declarao de amor sem
assinatura. Leu-a, e no pde deixar de sorrir: s havia uma coisa pior
que a forma, era o pensamento.
 De que se ri? perguntou a viva.
Viana aproximou-se de Flix e lanou os olhos para a pgina aberta.
 Ah! disse ele estouvadamente, isto  de meu defunto cunhado.
Lvia estremeu e corou.
 Viva de um nscio! pensou Flix. Estava pedindo um homem inteligente.
VIII
Queda
O desenlace desta situao desigual entre um homem frio e uma mulher
apaixonada, parece que devera ser a queda da mulher: foi a queda do
homem. Para triunfar da viva, Flix contava apenas com a sua resoluo;
mas a viva, alm do seu amor, tinha dois auxiliares ativos e latentes:
o tempo e o hbito. Cada dia que passava caa como uma gota dgua no
corao do mdico, e ia cavando fundo com a fria tenacidade do destino.
Ironia da sorte chamar o leitor a esse desfecho de uma situao que,
algumas semanas antes, to outra se lhe afigurava. Chame-lhe antes
lgica da natureza, porque o corao de Flix, que aparentava ser de
mrmore, era simplesmente da nossa comum argila. No era seguramente um
corao virginal e puro; tinha uma certa dose do egosmo que a natureza
maternalmente repartiu por todos os homens, e no se pode dizer que no
fosse algum tanto cptico; mas estes senes exagerava-os ele de maneira
que veio a perder, na imaginao dos outros, a sua fisionomia original.
As armas com que lutava eram certamente de boa tmpera, mas se valiam
muito para esgrimir, valiam pouco para pelejar. Com uma mulher, que
apenas tivesse a soma de afeto necessria para dissimular o erro, o
nosso heri ficaria na altura da reputao; mas o amor da viva era um
verdadeiro combate. Quando Flix chegou a encarar-lhe o corao, sentiu
a fascinao do abismo, e caiu nele.
Esta queda, como disse, foi lenta; o mdico comeou a sentir que a
presena da moa era para ele uma necessidade. Pesavam-lhe as ausncias
mais longas, e, o que era mais, vinham suavizar-lhas umas saudades, que
ele definia por outro modo, mas que, em suma, eram saudades. Quando a ia
ver, e  proporo que se aproximava dela, sentia bater-lhe alguma coisa
dentro do peito; o mdico dizia que era o sangue ainda juvenil e
irrequieto. Seria uma razo fisiolgica; mas havia tambm uma razo
moral: era a lava da paixo que se ia formando e subindo at romper a
garganta do vulco. Longa foi a gestao do amor; mas quando o mdico
descobriu o estado de sua alma, no era centelha que se pudesse abafar,
mas incndio que lavrava e consumia tudo.
Decidam l os doutores da escritura qual destes dois amores  melhor, se
o que vem do golpe, se o que invade a passo lento o corao. Eu por mim
no sei decidir, ambos so amores, tm suas energias. O de Flix parecia
ter criado no silncio uma fora invencvel.
Um potro arisco e selvagem, quando a mo do homem lhe pe o freio pela
primeira vez, no se irrita mais do que o nosso heri no dia em que
sentiu violada a liberdade do seu corao. Clera singular e insensata,
mas amarga e sincera. Planejou desde logo uma separao violenta, que
lhe desse tempo e armas para vencer-se a si prprio. A execuo seguiu
de perto a idia; e o mdico cessou repentinamente as suas visitas a Catumbi.
A ausncia, porm, foi ainda um auxiliar da viva. O despeito do mdico
no se aplacou, transformou-se; no acusava j a fraqueza do corao,
mas a rebeldia dele. O que a princpio lhe parecera necessrio para
restituir-lhe a paz do esprito, comeou a ter a seus olhos o carter de
ingratido. Ingratido, era j confessar muito, mas o mdico foi alm,
achou-se ridculo. Aqui j no era possvel a resistncia. Algum homem
pode gloriar-se de ser ingrato; dir, com um moralista cptico, que 
uma maneira de ser independente. Mas ningum  ridculo convencido;
convencer-se  emendar-se.
A essas razes que o mdico dava a si prprio, e que eram filhas da
conscincia, acresciam outras que ele no articulava, mas sentia; as
saudades, as recordaes, os desejos, a voz misteriosa e constante que
lhe sussurrava aos ouvidos o nome de Lvia.
Demais, a bela viva escreveu-lhe. Flix, como um verdadeiro namorado,
jurara no abrir as cartas que ela lhe mandasse, e correu  porta para
receber a primeira. No era carta de recriminaes, mas de surpresa e de
lgrimas. Quando veio a segunda carta, j o mdico sabia a outra de cor.
A segunda era a ltima, dizia Lvia; eram j recriminaes, mas no
contra ele, nem contra o destino; eram recriminaes contra si mesma. A
melanclica resignao da moa comoveu o mdico; no fim de uma semana
estava aos ps dela, fazendo ato de sincera contrio.
Lvia perdoou-lhe as lgrimas choradas durante aqueles oito dias de
angustiosa incerteza. Perdoou-lhas como sabem perdoar as almas
verdadeiramente boas,  sem ressentimento. Mas a causa da ausncia no a
explicou Flix.
 No me perdoou j? disse o mdico, quando ela lhe fez uma pergunta
direta a este respeito. Isso basta; no queira saber a razo desta
singular loucura, que me levou to longe do nico lugar em que me 
possvel a felicidade. Para minha expiao basta o que sofri tambm
nestes oito dias e a vergonha de ter...
Calou-se; receava dizer tudo. A moa ouviu aquelas palavras com
manifesta satisfao, e murmurou:
 Cimes?
Flix estremeceu. Uma sombra ligeira pareceu toldar-lhe os olhos. Lvia
inclinou para ele o rosto como querendo ler-lhe na fisionomia a verdade
que ele forcejava por esconder.
 No, disse Flix, no foram cimes. Cimes de qu e de quem?
 De ningum, bem sei; mas est-me a parecer, Flix, que o seu amor  um
pouco visionrio e melindroso. Oh! no me lastimo por to pouco;
agradeo-lhe at. Que perderia eu com isso? Alguns dias de paz, talvez;
mas a certeza de ser amada  uma grande compensao. O purgatrio no 
uma porta que abre para o cu? Cada qual sabe amar a seu modo; o modo
pouco importa; o essencial  que saiba amar. Pode ser que eu me engane,
continuou ela pondo-lhe as mos na fronte, mas eu creio que h nesta
cabea muita imaginao, e imaginao doente. Ou ento...
 Ou ento? repetiu o mdico, vendo que ela fazia uma pausa.
 Ou ento, a doena est aqui, concluiu Lvia apontando-lhe para o
corao. No importa; eu suportarei tudo, contanto que me ame.
 Oh! Lvia, exclamou Flix, depois de lhe beijar ternamente a fronte,
essa resoluo ser o penhor do nosso futuro. Consulte o seu corao;
veja se h nele bastante misericrdia para mim, e prometo-lhe que
seremos felizes.
 Tudo lhe perdoarei, contanto que me ame, disse a moa.
Compreenderia ela ento que dolorosa e pesada obrigao contrara?
Talvez no. Confiava em si mesma, no prestgio do seu amor, no corao
de Flix, para vencer tudo, e realizar o que era o sonho da sua vida.
O caminho melhor para isto era seguramente o da igreja. Que obstculo
podia haver? Um e outro dependiam exclusivamente de si; o casamento era
o desfecho lgico e sacramental daquele romance. Mas nem a viva o
insinuava nem o mdico o propunha, e nesta situao mal definida alguns
dias correram de tranqila felicidade.
Aos olhos estranhos buscavam ambos esconder o seu segredo; mas a reserva
de Lvia era apenas a que bastava para acatar as convenincias, ao passo
que a de Flix era to completa e calculada que  prpria moa iludia.
Esta facilidade de dissimulao desconsolou-a. Achava-a perfeita demais.
Era um sintoma de tranqilidade que desdizia com o amor impetuoso de
Flix. Demais, que razo haveria para esconder to misteriosamente dos
olhos dos outros, uma coisa que deveria e no tardaria a ser pblica?
A indiferena de Flix, entretanto, no era to completa como parecia,
era uma indiferena vigilante. Quando os olhos da viva procuravam os do
mdico, este desviava cautelosamente os seus; mas olhava, digamo-lo
assim, por baixo da plpebra.
Foi ento que comeou para ela uma vida de luta.
IX
Luta
O amor de Flix era um gosto amargo, travado de dvidas e suspeitas.
Melindroso lhe chamara ela, e com razo; a mais leve folha de rosa o
magoava. Um sorriso, um olhar, um gesto, qualquer coisa bastava para lhe
turbar o esprito. O prprio pensamento da moa no escapava s suas
suspeitas: se alguma vez lhe descobria no olhar a atonia da reflexo,
entrava a conjeturar as causas dela, recordava um gesto da vspera, um
olhar mal explicado, uma frase obscura e ambgua, e tudo isto se
amalgamava no nimo do pobre namorado, e de tudo isto brotava, autntica
e luminosa, a perfdia da moa.
Lvia preferia decerto uma confiana honesta e leal, mas a desconfiana
estava longe de lhe amargurar o corao, aceitava-o com alegria.
 Antes isto, dizia-lhe depois de uma reconciliao; vejo que me ama. A
confiana tambm se parece com a indiferena, e a indiferena  o pior
de todos os males.
Esta filosofia teve seus instantes de desmaio. No bastava a fora do
amor para resistir  suspeita de todos os dias, que se apagava s vezes
logo, mas que renascia depois, para de novo se apagar e renascer. Lvia
comeou a fugir dos lugares que at ento freqentava habitualmente.
Raras vezes aparecia no teatro ou numa reunio. Flix compreendeu a
causa desta reserva e disse-lha. A moa negou; mas, como ele insistisse
em afirmar e pedir que ela no alterasse os seus hbitos, respondeu:
  bom de dizer, Flix; assim vamos melhor; l fora como aqui, l pior
do que aqui, a menor coisa basta para lhe transviar o esprito.
 Juro-lhe que no.
Jurava, mas quebrava o juramento. O esprito no ratificava as promessas
do corao.
De que lhe servia a ela a mxima prudncia nas suas relaes com as
demais pessoas, se tudo era pouco para obter a confiana de Flix? Uma
hora de inaltervel felicidade era comprada  custa de muitas horas de
tdio, s vezes de lgrimas. Ele as sentia decerto, e pagar-lhas-ia com
sacrifcios, se precisos fossem; mas eram curtos esses lcidos instantes.
Lvia no se acostumou a ler logo na fisionomia do mdico. Ele possua
em alto grau a faculdade de esconder o bem e o mal que sentisse. Era uma
faculdade preciosa, que o orgulho educara, e se fortificou com o tempo.
O tempo, entretanto, a pouco e pouco lhe foi adelgaando essa couraa, 
medida que se prolongava e multiplicava a luta. Ento os olhos da viva
aprenderam a soletrar-lhe no rosto os terrores e as tempestades do
corao. s vezes, no meio de uma conversa indiferente, alegre, pueril,
os olhos de Lvia se obscureciam e a palavra lhe morria nos lbios. A
razo da mudana estava numa ruga quase imperceptvel que ela descobria
no rosto do mdico, ou num gesto mal contido, ou num olhar mal
disfarado.
Esta situao pde esconder-se aos olhos de todos, menos aos de Lus
Batista. Observador e perspicaz, e ao mesmo tempo sem paixes nem
escrpulos, percebeu este que quanto mais o amor de Flix se tornasse
suspeito e tirnico, tanto mais perderia terreno no corao da viva, e
assim, roto o encanto, chegaria a hora das reparaes generosas com que
ele se propunha a consolar a moa dos seus tardios arrependimentos.
Para alcanar este resultado, era mister multiplicar as suspeitas do
mdico, cavar-lhe fundamente no corao a ferida do cime, torn-lo em
suma instrumento de sua prpria runa. No adotou o mtodo de Iago, que
lhe parecia arriscado e pueril; em vez de insinuar-lhe a suspeita pelo
ouvido, meteu-lha pelos olhos.
A dificuldade era certamente maior e mais delicada, mas o pretendente
tinha em larga escala as qualidades precisas para ela. Era-lhe
necessrio afetar com a moa uma intimidade misteriosa, mas discreta,
sem aparato, antes cercada de infinitas cautelas, to hbil que ela no
percebesse, mas to claramente dissimulada que fosse direito ao corao
de Flix.
Mas a mulher dele? A mulher dele, amigo leitor, era uma moa
relativamente feliz. Estava mais que resignada, estava acostumada 
indiferena do marido. Dera-lhe a Providncia essa grande virtude de se
afazer aos males da vida. Clara havia buscado a felicidade conjugal com
a nsia de um corao que tinha fome e sede de amor. No logrou o que
sonhara. Pedira um rei e deram-lhe um cepo. Aceitou o cepo e no pediu mais.
Todavia, o cepo no o fora tanto antes do casamento. Paixo no a teve
nunca pela noiva; teve, sim, um sentimento todo pessoal, mistura de
sensualidade e fatuidade, espcie de entusiasmo passageiro, que os
primeiros raios da lua de mel abrandaram at apag-lo de todo. A
natureza readquiriu os seus aspectos normais; a pobre Clarinha, que
havia ideado um paraso no casamento, viu desfazer-se em fumo a sua
quimera, e aceitou passivamente a realidade que lhe deram,  sem
esperanas  certo, mas tambm sem remorsos.
Faltava-lhe,  e ainda bem que lhe faltava,  aquela curiosidade funesta
com que o anfbio clssico, desenganado do cepo, entrou a pedir um rei
novo, e veio a ter uma serpente que o engoliu. A virtude salvou-a da
queda e da vergonha. Lastimava-se, talvez, no refgio do seu corao,
mas no fez imprecaes ao destino. E como nem tinha fora de aborrecer,
a paz domstica nunca fora alterada; ambos podiam dizer-se criaturas felizes.
Ora, pois, enquanto Clarinha nenhum lugar ocupava no esprito do marido,
este executou o plano que havia organizado. O resultado foi lento, mas
certo. O corao de Flix bebeu aos poucos o veneno que lhe propinava
tranqilamente o astuto rival; mil circunstncias fortuitas vieram
favorecer a obra de Lus Batista. O esprito de Flix era apropriado
terreno para ela; a suspeita rara vez lhe morria em embrio; uma vez
lanada a semente, germinava com fora, crescia, apoderava-se dele, e
ento batia a hora da crise, a hora que o seu rival pacientemente
esperou, e conseguiu.
Desta vez assentou Flix uma resoluo herica: romper o encanto que o
prendia  bela viva. Tinham j passado alguns meses, todos eles assim
entremeados de felicidade e amargura. Cem vezes se convencera das suas
injustias; mas a cada suspeita nova ressurgiam as anteriores, as que
ela perdoara, e a ltima confirmava ento as primeiras, e o pobre rapaz
achava-se sinceramente ludibriado e ridculo.
Escreveu uma carta longa e violenta, em que acusava a moa de perfdia e
dissimulao. Havia amargura na carta, mas havia tambm dio e desprezo,
tudo quanto podia ferir para sempre um corao que at ali soubera amar
e sofrer, mas que enfim podia cansar e desprezar.
Enviada a carta, deixou-se ele entregue  sua dor, disposto a no voltar
a Catumbi. Ningum viu ento uma lgrima que o desespero lhe arrancou, e
que ele se apressou de enxugar com vergonha de si mesmo. Recapitulou
ento todos os sucessos dos ltimos dias; nunca lhe parecera mais
evidente a traio da moa, nem mais cruel a situao do seu esprito.
Um raio de esperana veio entretanto projetar-se na sua noite de
dvidas. Imaginou que tudo podia ser erro e iluso, e esperou que a
resposta de Lvia tudo viesse esclarecer.
Nada esclareceu a resposta da moa, porque o portador da carta voltou
sem ela. Ao cime que o devorava, veio misturar-se o despeito;
complicou-se a dor com o orgulho ofendido. Lvia apareceu-lhe com todos
os caracteres de uma loureira vulgar, e loureira no traduz bem o
pensamento do moo.
Nesse estado passou Flix o resto do dia. Longas lhe correram as horas,
friamente longas como elas so, quando o corao padece ou espera.
Enfim, caiu a tarde, apagou-se de todo o sol, as sombras da noite
comearam a lutar com os derradeiros lampejos do crepsculo, at que de
todo dominaram o cu.
A melancolia da hora insinuou-se no corao do mdico, e a pouco e pouco
lhe aquietou o desespero do dia. Flix meditou longo tempo na situao
que as circunstncias lhe haviam criado. Viu o imenso espao que aquele
amor lhe tomara na vida, e a terrvel influncia que poderia exercer
nela, caso no achasse foras para resistir  separao. Qual seria o
meio de escapar a esse desenlace, pior que tudo? Flix pensou numa
viagem, como o meio mais fcil e pronto. Dispunha mentalmente as coisas
para esse fim, quando ouviu parar um carro.
Da a pouco entrou um escravo dizendo que uma pessoa insistia em
falar-lhe: era uma senhora.
 Uma senhora! repetiu Flix.
Era Lvia. Quando Flix chegou  sala, estava ela  porta, com o rosto
coberto por um vu que arregaou imediatamente. Flix no pde reter um
grito de surpresa.
Lvia trazia pela mo um menino: era o filho. Caminhou para o mdico
depois de alguns instantes de absoluto silncio, e estendeu-lhe a mo.
 No esperava a minha visita? disse ela com tranqilidade.
 Confesso que no.
 Devia esperar porque eu no havia respondido  sua carta, e alguma
coisa cumpria que lhe dissesse.
 No receou que os olhos da sociedade... disse ele.
 A sociedade est tomando ch, atalhou a viva procurando sorrir. Era
preciso que eu viesse e vim.
Flix fez um movimento.
 Sim, era preciso, insistiu Lvia. Uma carta seria j intil; entre ns
as cartas perderam a virtude, Flix. Eu j no sei, j no tenho
palavras com que lhe restitua a confiana ao corao. Esta ousadia
talvez...
A luz batia de chapa no rosto da moa; Flix viu tremerem-lhe duas
lgrimas nos olhos, hesitarem um instante, e rolarem depois na face,
levemente corada de agitao e de pejo.
 Fui talvez cruel no que escrevi, disse ele, e quero crer que fosse
tambm injusto, mas amo-a,  todo o meu cime...
Lvia suspirou.
 No o amo eu tambm? disse ela. Nem por isso sou cruel ou injusta. Mas
no o acuso; se o acusasse no viria aqui. Venho porque sei que padece,
e a despeito de tudo devia vir.
Flix conduziu-a para o sof, e sentou-se numa cadeira. Lus ficou de p
entre ele e ela, meio indiferente, meio curioso do que ouvia sem
entender.
 No receou que este menino pudesse dizer alguma coisa? perguntou Flix.
 No pensei nisso. Fui visitar Raquel, que est muito mal; fui s com
ele. Tinha a idia de vir s Laranjeiras: isso dominava tudo. Se
conseguir dissipar-lhe as novas dvidas que o afligem, pouco me importam
as conseqncias. Que quer? Eu sou assim. Vejo no mundo o meu amor e a
sua felicidade; tudo o mais me  estranho ou nulo.
Lvia dizia estas palavras com um tom singelo e verdadeiramente dalma,
que comoveu o mdico.
 Oh! para isso basta uma coisa, disse Flix com impetuosidade. Jura-me
que nenhuma razo havia para suspeitar?
Lvia abriu muito os olhos como espantada do que ouvira; depois,
abanando tristemente a cabea:
 O senhor h de quebrar todo o meu orgulho, disse com amargura. Eu
arrisco tudo para lhe restituir a felicidade e a paz; o senhor
recompensa-me este sacrifcio com a humilhao. Jurar-lhe! De que serve
um juramento mais entre ns? Se o que acabo de fazer no  bastante,
Flix, concluamos aqui o nosso romance; e oxal que alguma pgina dele
possa algum dia lembrar-lhe com saudade.
Dizendo estas palavras, a moa voltou o rosto para esconder a sua
comoo. Flix sentiu pungir-lhe um remorso, e teve mpeto de cair aos
ps da bela viva. Murmurou algumas palavras, que ela no percebeu ou
no ouviu, at que o menino chamou a ateno de ambos, dizendo:
 Vamos mame?
Lvia levantou-se e desceu o vu sobre o rosto.
 Perdoe-me tudo, disse Flix; ainda uma vez lhe peo perdo. No me
julgue como os outros fariam, se conhecessem esta triste histria de
alguns meses. No sou mau; falta-me confiana; algum dia lhe direi por
qu. Por agora, perdoe-me outra vez. Injuriei-a, bem sei; no devia
pedir-lhe nada mais, porque me deu generosamente a maior consolao que
o meu esprito ousaria esperar.
 Esse homem? disse a viva, depois de um instante.
 Por que me pergunta?
 Quero afast-lo de minha casa, se ele l vai, ou evitar as ocasies de
me encontrar com ele.
  um homem que a no respeita sequer, um libertino, cuja a mulher  um
anjo...
 O Dr. Batista?
 Esse.
Lvia estendeu-lhe a mo. Flix quis ainda falar-lhe, mas a viva
observou que era tarde e dirigiu-se para a porta. Flix acompanhou-a at
o jardim. Ao despedir-se dela pela ltima vez, o mdico apertou-lhe
fervorosamente a mo.
 Perdoa-me?
 Sim! disse ela.
E pela primeira vez nessa noite era a sua voz terna e amorosa como de
costume.
Flix viu-a entrar no carro que partiu imediatamente. Voltou para a
sala. Estava irritado contra si mesmo. Reconhecia a sua precipitao;
achava-se grosseiramente injusto. Se lhe houvera lembrado a visita da
moa, t-la-ia pedido como o meio nico de lhe desvanecer de todo as
suspeitas. Agora que ela o deixava, acusava-se de a haver obrigado
quele extremo recurso.
A noite pareceu-lhe ainda mais longa que o dia. Velava e remordia-lhe a
conscincia. Ouviu bater uma por uma as horas todas, ansioso por que
viesse o dia seguinte para ir a Catumbi resgatar  fora de ternura e
respeito a injustia com que tratara a viva. Cerrou os olhos quando a
arraiada despontou no cu; pouco dormiu, entretanto. Ao levantar-se
tinha o esprito mais sossegado, e pde apreciar melhor a situao.
 O casamento me restituir a confiana, pensava ele; quando estivermos
juntos os dois, afastados da convivncia e do contato de estranhos, a
paz morar no meu corao; s ento seremos felizes sem amargura nem remorso.
X
A enferma
A doena de Raquel era grave; durante alguns dias chegaram a recear um
desenlace funesto. Os velhos pais quase enlouqueceram, quando o mdico
os preparou para a terrvel catstrofe. A menina percebeu o seu estado,
mas nem o medo da morte, nem a saudade da terra lhe fez doer o corao.
Morria como flor que era. A mgoa era toda para os que a viam assim
condenada sem remdio.
O mdico assistente dera  molstia um nome tirado no sei se do grego,
se do latim. Na opinio da me, havia alguma coisa mais do que o nome e
a molstia; havia uma inexplicvel melancolia, anterior  doena uma
espcie de tdio precoce da vida, se no era antes alguma esperana
malograda,  ou mais claramente, alguma afeio sem esperana.
Para obter dela a confisso que imaginava, tinha D. Matilde o necessrio
tato e doura: era mulher e me. Mas, ou porque nada houvesse realmente,
ou porque quisesse levar consigo o segredo da sua melancolia, Raquel
nenhuma confisso lhe fez.
Dois dias depois da visita de Lvia, Flix foi  casa do coronel. O
coronel estava na sala, mergulhado numa poltrona, com os olhos parados e
as feies abatidas pela viglia e pela dor. Quis levantar-se quando
Flix apareceu  porta, mas este correu para ele e impediu o movimento.
 Soube anteontem do estado de sua filha, disse Flix sentando-se ao
lado do velho pai. Disseram-me que estava mal...
 Mal, repetiu o coronel, definitivamente mal. A pouca esperana que
tnhamos veio tirar-no-la o mdico. O senhor no sabe o que  perder
assim metade da alma.
Flix disse algumas palavras banais de consolao, e chegou at falar de
esperana; mas ainda que a presena fala sempre ao corao dos
desgraados, o bom velho em outra coisa no acreditava mais que na morte.
Algum tempo estiveram calados; enfim o coronel rompeu o silncio:
 Raquel  muito sua amiga, disse ele. Duas vezes perguntou pelo senhor.
 Desde quando est doente?
 De cama est h quinze dias; mas j sofria antes disso. A princpio
no me deu muito cuidado; a molstia, porm, agravou-se rapidamente, e
tem ido a pior.
Foram interrompidos pelo mdico assistente. Tinha este sido companheiro
de Flix na escola, Ao v-lo ali suspeitou que o tivessem mandado
chamar; Flix apressou-se a explicar o motivo da sua visita.
 Em todo o caso, doutor, disse o outro, aproveito as suas luzes, e
faamos, se lhe parece, uma conferncia.
O coronel foi ver se Raquel estava acordada; voltou pouco depois e
acompanhou os dois mdicos  alcova da doente.
Flix foi o primeiro que assomou  porta; parou alguns instantes,
impressionado com o espetculo que se lhe oferecia.
Sentada  cabeceira da cama estava D. Matilde, descorada e abatida, com
os olhos tmidos, e porventura cansados de chorar. Aos ps da cama
via-se uma moa amiga da infncia de Raquel, e sua dedicada enfermeira
nesta ocasio. Ambas, triste e silenciosamente, contemplavam a doente.
Raquel estava branca como a fronha do travesseiro em que descansava a
formosa cabea. Tinha os lbios entreabertos e a respirao curta e
difcil. O pequeno rumor que fizeram os mdicos ao entrar um pouco a
sobressaltou. Raquel abriu os olhos, que ardiam de febre.
Quando Flix se aproximou do leito e tomou o pulso da moa, esta olhou
para ele e fez um gesto de espanto. Olhou depois em volta de si, como se
duvidasse do lugar em que se achava. D. Matilde inclinou-se para a filha
e disse:
  o Dr. Flix.
Raquel olhou outra vez para Flix, com aquele sorriso apagado e triste
dos doentes e murmurou:
 Obrigada!
 Como se sente? perguntou Flix,
 Melhor, disse ela com uma voz to fraca que parecia um suspiro.
 Deveras melhor?
Raquel fez um gesto de indiferena e no respondeu.
 Vamos l, no desanime, disse Flix, e sobretudo no faa entristecer
seus pais, que lhe querem tanto.
Flix examinou a doente, fazendo-lhe algumas perguntas, a que ela
debilmente respondia. Quando ele cessou de a interrogar, a moa murmurou:
 Morro, no ?
 No, disse Flix, no h de morrer, no deve morrer. Tem ainda vida
larga, mas  preciso nimo.
Raquel fez um gesto de quem no acreditava nas boas palavras do mdico,
e voltou os olhos para a me. D. Matilde tinha os seus cravados em
Flix, como se lhe quisesse ler no rosto a sentena da filha. A doente
pareceu adivinhar o pensamento, e disse com esforo:
 Por que no d as suas consolaes a mame?
A conferncia no durou muito tempo. Flix comeou opinando por uma
modificao no tratamento at ali seguido, e declarou que no julgava
todas as esperanas perdidas. O colega concordou facilmente na alterao
pedida por Flix, tanto mais, disse ele, quanto as esperanas eram
nenhumas.
Em sua opinio, Raquel estava irremediavelmente perdida. No era opinio
area e infundada; ele podia demonstr-la com argumentos cabais e
irrefutveis. Demonstrou-o efetivamente, durante vinte minutos, com a
justa apreciao dos fatos, os dados seguros da cincia, e uma dialtica
to cerrada que era impossvel fazer-lhe a menor objeo.
Quinze dias depois, entrava Raquel em convalescena.
No sentir dos pais, era Flix o salvador da filha. Fora ele quem lhes
restitura a esperana, e a realizara com os seus bons conselhos e
diligente desvelo.
O colega de Flix, para quem o restabelecimento da moa era a destruio
de todas as noes mdicas recebidas, ficou profundamente surpreendido
com esse resultado. Em todo caso, era impossvel neg-lo; limitou-se a
aplaudi-lo, e quando a moa entrou em convalescena aconselhou aos pais
que a mudassem para algum arrabalde da cidade, a fim de respirar
melhores ares.
No podia vir mais a propsito o conselho. Lvia mudara-se para as
Laranjeiras. A idia da mudana era de Viana, que um dia a props 
irm, e fora aprovado por ela. A casa ficava pouco acima da de Flix, do
lado oposto.
Era um prdio elegante, levantado no meio de uma chcara, no extensa
nem esmeradamente tratada. Viana, entretanto, organizara um programa de
reforma, que prometia executar pontualmente. Seu contentamento parecia
no ter limites; alm de preferir aquele bairro ao outro em que morava,
havia a circunstncia de ir ficar ao p da casa de Flix,  o que era j
meia felicidade, dizia ele.
Lvia aprovara a mudana sob a influncia de igual idia. Aqueles
ltimos dias tinham sido de plena e deliciosa paz. Seus projetos de
futuro eram imensos; delineava uma vida independente de todas as
escravides sociais, vida exclusiva deles, cheia de todos os prestgios
da poesia e do amor. s vezes receava que esses sonhos fossem apenas
sonhos. Ainda assim no os dera por nenhum preo deste mundo.
Estavam ento nos primeiros dias de outubro; o casamento fora marcado
para meado de janeiro. Marcado, entenda-se bem, apenas entre os dois,
porque Flix conseguira da viva a promessa de que a notcia seria dada
nas vsperas do acontecimento.
 Mas a razo deste segredo? perguntou Lvia depois que lhe prometer o
que pedia.
 Um capricho.
A razo verdadeira era a vacilao do seu esprito; mas a que ele deu
contentou perfeitamente a moa.
 Se eu tivesse o teu corao, disse ela, desconfiava desta exigncia;
mas, v l, eu creio em ti.
Estavam ss na chcara; Viana, fiel ao seu programa de no perturbar os
dois namorados, foi meditar a alguma distncia nas reformas que
pretendia fazer. Caminhavam os dois calados e distrados, ou melhor,
concentrados em si mesmos. De repente, a viva levantou a cabea e disse
como continuao das suas anteriores palavras:
 H contudo ocasies em que esta confiana parece abalar-se, no porque
eu duvide de ti, mas porque duvido do destino. J te disse que sou
supersticiosa,  defeito das mulheres e das crianas. Estremeo algumas
vezes, quando encaro o futuro, e, sem saber por qu, pergunto a mim
mesma qual ser o fim de tudo isto. Desmaios apenas, e raros, de um
corao que ambiciona, talvez, mais do que poderia obter.
 No te parece que eu esteja emendado? disse Flix sorrindo. H quantos
dias no h sequer...
 Cala-te! interrompeu Lvia tocando-lhe os lbios com os dedos. Tenho
medo de te ouvir falar assim.
E depois de um instante de silncio:
 No  o teu corao que me faz tremer; o teu corao  bom. No 
tambm o teu esprito, apesar de caprichoso, visionrio, inconstante.
Receio do futuro,  vista do passado.
 Do passado? perguntou Flix estacando o passo.
Lvia suspirou.
 Que houve de mau no teu passado? continuou o mdico fitando nela um
olhar perscrutador.
 Tudo.
Havia perto um velho sof de vime. Lvia encaminhou-se lentamente para
ele e sentou-se. Flix contemplou-a algum tempo do lugar em que ficara.
J no sorria; a dvida ensombrava-lhe os olhos. Enfim, deu alguns
passos e parou em frente dela.
XI
O passado
 Serei indiscreto perguntando que passado foi esse? disse Flix depois
de alguns instantes.
 Oh! descansa! No me pesa nada na conscincia; mas no corao...
 Amaste algum?
 Amei a meu marido.
A esta resposta de Lvia seguiu-se novo e longo silncio. A memria do
passado a que ela to misteriosamente aludira parecia doer-lhe na alma.
Arfava-lhe o seio, e as mos, em que o mdico amorosamente tocou,
estavam geladas e trmulas.
 No acreditas que eu possa compreender-te melhor que os outros?
perguntou finalmente o mdico.
 Talvez no.
Flix fez um gesto de despeito. A moa arredou o vestido e abriu espao
no sof, onde o mdico se sentou a um sinal dela.
 Talvez me no compreendas melhor que os outros, continuou Lvia, e com
isto no quero dizer que sejas to vulgar como os mais deles. No o s;
mas h coisas que um homem dificilmente compreender, creio eu.
 Nem quando ama? perguntou Flix.
Lvia no respondeu; Flix continuou:
 Mas que passado foi esse? Posso no compreender-te, como dizes, mas
saberei dizer-te algumas palavras de consolao, e dissipar com elas a
tristeza que te ficar desta confidncia, que no  um remorso, decerto.
 Amei a meu marido, comeou Lvia, e toda a minha confidncia se resume
nessas poucas palavras. Tive uma paixo da primeira idade, quando o amor
vem surpreender a ignorncia do corao. Ser esse o amor mais forte? H
quem diga que o primeiro amor nasce apenas da necessidade de amar. Pode
ser. Hoje que te amo sinto que pode ser assim. Em todo o caso, aquele
afeto, dominou-me toda; cobrei uma vida que me parecia imortal.
 E ele?
 Amava-me, creio, mas no entendamos o amor do mesmo modo; tal foi o
meu doloroso e tardio desencanto. Para mim era um xtase divino, uma
espcie de sonho em ao, uma transfuso absoluta da alma para alma;
para ele o amor era um sentimento moderado, regrado, um pretexto
conjugal, sem ardores, sem asas, sem iluses... Erraramos ambos, quem
sabe?
 Vejo que eram incompatveis, interrompeu Flix; mas, por que exigir de
todos essa maneira de ver e sentir, que  mais da imaginao que da
realidade?
Lvia levantou os ombros.
 Estou explicando a situao da minha alma, continuou ela. Foi aflitiva
e triste; no lha ocultei. Riu-se de mim. Era um homem aptico e frio;
honesto,  verdade, e bom corao, mas falvamos lngua diversa e no
nos podamos entender. Confiei todavia na influncia do amor. Empreendi
a tarefa de o trazer  atmosfera dos meus sentimentos, errada tentativa,
que s me produziu atribulao e cansao. Fatigava-o com isso a que ele
chamava pieguices poticas; da fadiga passou  exasperao, da
exasperao ao tdio. No dia em que o tdio apareceu conheci que o mal
estava consumado. Quis emend-lo e no pude. Tinha feito da nossa vida
conjugal um deserto; e se a minha alma clamava contra o destino, minha
conscincia me acusava de um erro, o erro de haver perturbado a paz
domstica, a troco de um sonho que no veio. No me fao melhor do que
sou, bem vs; mas uma parte da culpa no ser da natureza que me fez to
pueril? Tal  o meu receio agora, continuou Lvia depois de alguns
segundos de silncio; s vezes cuido que no vim ao mundo para ser feliz
nem para dar a felicidade a ningum. Nasci defeituosa, parece. Sers tu
capaz de desfazer a apreenso ou corrigir o defeito?
A viva concluiu estendendo-lhe a mo que o mdico apertou entre as
suas. Um sorriso de simpatia ou de comiserao, ou de ambas as coisas
juntas, entreabriu os lbios de Flix. Nenhum deles falou; ambos
pareciam conversar consigo mesmo. Enfim, a viva repetiu a pergunta.
 Talvez possa dissipar-te a apreenso, respondeu Flix; mas, creio que
no ser fcil. Tens um corao ainda muito criana, e que o h de ser
at a morte, penso eu.
Flix calou-se, e contemplou  vontade a fisionomia da viva, que tinha
os olhos postos no cho, absorta e pensativa. A pouco e pouco o rosto do
mdico se foi igualmente fechando, e ambos, durante largo espao, se
deixaram ir na corrente de seus pensamentos sombrios. Flix foi o
primeiro que despertou do letargo.
 Naufragaste  vista de terra, disse ele, e do naufrgio trouxeste
apenas midos os vestidos. Sabes o que  naufragar em mar alto e
solitrio, e perder tudo, at a vida? Foi assim comigo.
 Sim? disse Lvia com um tom em que a alegria se misturava 
curiosidade.
Flix no pde reter um sorriso.
 O infortnio  egosta, pensou ele.
E continuou:
 Sim, perdi muito mais. Abraar um cadver, que  isso para quem j
abraou uma serpente? Tu perdeste apenas alguns anos de amor mal
compreendido; no perdeste um bem precioso, que o tempo me levou: a
confiana. Podes hoje ser feliz do mesmo modo que o querias ser ento;
basta que te ame algum. Eu no, minha querida Lvia, falta-me a
primeira condio da paz interior: eu no creio na sinceridade dos
outros.
Aqui parou como se esperasse alguma observao da viva; ela, porm,
olhava para ele tranqila e at risonha. Flix continuou as suas
confidncias do passado. Eram histrias de afeies malogradas e
tradas, contadas com sincera expanso, como se estivesse falando a si
mesmo. s vezes a comoo fazia tremer-lhe a voz, e nessas ocasies,
sobretudo, lia-se nos olhos da moa o enlevo com que ela ouvia falar-lhe
o corao.
 Ningum esperdiou mais generosamente os afetos do que eu, continuou o
mdico, ningum mais do que eu soube ser amigo e amante. Era crdulo
como tu; a hipocrisia, a perfdia, o egosmo nunca me pareceram mais que
lastimveis aberraes. Meu esprito criara um mundo seu, uma sociedade
platnica em que a fraternidade era a lngua universal, e o amor a lei
comum. Deixei-me ir assim, rio abaixo dos anos, gastando a seiva toda da
juventude, sem clculo nem arrependimento, at que me bateu a hora das
decepes funestas.
Calou-se. Sentira um rumor prximo; era Viana que passeava na chcara
entregue s suas combinaes de horticultura. Ouvira ele a voz de Flix?
Parece que sim, porque a pouco e pouco se foi afastando do lugar. Os
dois ficaram outra vez ss. O mdico prosseguiu:
 No me caram as iluses como folhas secas que um dbil sopro desprega
e leva, foram-me arrancadas no pleno vigor da vegetao. No me deixaram
essas doces recordaes, que so para as almas enfermas como que uma
aura de vitalidade. Meu esprito ficou rido e seco. Invadiu-me ento
uma cruel misantropia, a princpio irritada e violenta, depois
melanclica e resignada. Calejou-se a alma a pouco e pouco, e o meu
corao literalmente morreu.
Flix continuou a narrao por este mesmo tom elegaco e triste. Foi
longe e fiel. Se a viva no o escutasse s com o corao, poderia
perceber alguma coisa mais do que ressentimento e amargura. Flix no
era virtualmente mau; tinha, porm, um cepticismo desdenhoso ou
hipcrita, segundo a ocasio. No perceberia s isso; veria tambm que a
natureza fora um tanto cmplice na transformao moral do mdico. A
desconfiana dos sentimentos e das pessoas no provinha s das decepes
que encontrara; tinha tambm razes na mobilidade do esprito e na
debilidade do corao. A energia dele era ato de vontade, no qualidade
nativa; ele era mais que tudo fraco e volvel.
Lvia no percebia nada disto; escutava-o com a f pia de um corao
amante. Sabendo que a razo do atual abatimento eram os infortnios
passados, ela confiava de si mesma o renovar aquela alma que envelhecera
antes do tempo. Tais foram as suas consolaes quando o mdico terminou
a longa confidncia. Ele agradeceu-lhe comovido, no sem lhe perguntar
se ela teria fora bastante para concluir essa misso piedosa.
 Tenho, afirmou Lvia.
  certo que me ressuscitaste, continuou o mdico; e se o futuro me
guarda ainda alguns dias de felicidade sem mescla, a ti s os deverei,
minha boa Lvia; tu s havers feito o milagre. Mas...
 Mas? repetiu a moa com impacincia.
 A obra no est completa, continuou Flix; metade apenas. Fizeste
brotar dentre as runas uma flor solitria, mas bela; nica neste rido
terreno do meu corao. No basta;  preciso agora um raio que a anime e
lhe conserve o perptuo vio; essa  a confiana, no de uma hora, mas a
de todos os dias, a que no falece nunca e nos restitui a serenidade dos
primeiros tempos. Sem ela, o meu amor ser um largo e intil martrio.
Dizendo isto, conchegou-a ao seio; tocavam-se quase os rostos, que a
ternura, no a voluptuosidade, enlanguescia. No foi longe esse instante
de mtua contemplao, mas valeu por muitas horas de prtica. Se a vida
pudesse ser eternamente aquilo,  provvel que o corao de Flix
adquirisse a paz que almejava. Enfim, a moa deixou cair o corpo, como
se lho debilitasse o peso de comoes to vivas, e a palavra afluiu aos
lbios de ambos.
Falaram ento em prosa; conversaram de seus projetos de futuro, dos
arranjos do casamento, de uma viagem que fariam logo depois. Iam
levantar-se quando ao longe lhes apareceu o irmo de Lvia. Caminhava
apressadamente e alegre ao encontro dos dois namorados. Flix comps o
rosto com a expresso que o caso pedia; Viana aproximou-se, e disse 
irm que o coronel Morais estava na sala com a filha.
Lvia pediu licena ao mdico e dirigiu-se para a casa. Flix deu o
brao a Viana.
 Falvamos das suas reformas, disse ele, e fazamos prosaicamente o
oramento das despesas que vai ter.
Viana sorriu-se  socapa, mas no deixou cair o assunto no cho. Falou
com volubilidade dos seus planos, que eram vastos e originais,
concluindo por uma singela confisso acompanhada de um olhar indagador.
 Receio, disse ele, que a Lvia se case mais tarde ou mais cedo.
Flix limitou-se a sorrir com indiferena; entravam ambos na sala.
XII
Um ponto negro
Lvia e Raquel estavam assentadas no sof; o coronel, encostado a uma
cadeira, consultava o relgio. No consultava; tinha o relgio na mo,
diante dos olhos, mas os olhos reviam-se na filha, enquanto esta
respondia s perguntas da viva.
 Aqui est a doente, disse Lvia apenas viu assomar  porta da sala o
mdico e o irmo.
Raquel voltou a cabea, e no pde reter uma exclamao de surpresa e de
alegria. Flix adiantou o passo e foi apertar-lhe a mo.
 Ento? no est salva? disse ele olhando alternadamente para as duas
moas.
 Foi o senhor que a salvou, disse o coronel chegando-se ao grupo.
 No fui; auxiliei a natureza, nada mais.
 Havemos de p-la totalmente boa e viva como era antes, disse Lvia
dando um beijo na convalescente.
Raquel ouviu este dilogo com um sorriso triste que parecia ainda mais
triste naqueles lbios sem cor. Estava extremamente plida e magra; os
olhos, agora que o fogo da febre se apagara neles, pareciam amortecidos
e fundos. Ainda assim, no perdera ela a sua natural gentileza. Mais: a
prpria morbidez do aspecto como que lhe dava realce maior.
Talvez essa circunstncia influsse na impresso que o mdico agora
recebia; pela primeira vez lhe pareceu Raquel uma mulher.
O coronel respirava felicidade por todos os poros. A alegria que perdera
durante a molstia da filha, voltava agora mais que nunca ruidosa e
comunicativa. Era um velho palreiro e jovial, amigo da palestra e de
anedotas, antes gracioso que chocarreiro, tendo aquela amvel gravidade
com que a gente se familiariza sem perder o respeito. De quando em
quando olhava para a filha com olhos paternalmente namorados, ento
parecia esquecer-se do resto do mundo, porque o mundo inteiro, ao menos
parte dele, que a outra parte lhe ficara em casa, estava ali resumida
naquela franzina e alquebrada criatura.
 E promete-me que ma restituir, disse ele  viva, no corada, que ela
nunca o foi, mas com aspecto de sade, viva como era, e alegre, e at se
quiser travessa?
 E por que no? Os ares so bons; os carinhos sero fraternais, e
melhor que os ares e os carinhos, h de cur-la a natureza, e creio
tambm que a boa vontade dela. No  assim? disse Lvia batendo na face
de Raquel.
A resposta de Raquel foi dar-lhe um beijo, e sorrir, no j tristemente
como da primeira vez. A tarde cara de todo. O coronel fez algumas
recomendaes derradeiras  filha, agradeceu  viva e ao mdico,
meteu-se no carro e voltou para Catumbi. Lvia foi mostrar  amiga o seu
aposento; Flix despediu-se de ambas e dirigiu-se para a porta.
 Volta? perguntou Lvia.
 Talvez no, minha senhora, respondeu Flix, cuja inteno positiva era
ir l tomar ch.
A presena de Raquel veio de algum modo alterar as relaes dos dois
namorados. J no podiam ser freqentes as entrevistas solitrias em que
ambos se esqueciam do mundo e de si. Mais que nunca, procurou Flix
recatar o seu amor das vistas alheias, por modo que, apesar da
convivncia que tinha com os dois, Raquel nada suspeitou entre eles.
Alguma coisa adivinharia se reparasse que a viva, quando estava com
ela, quase que s falava do mdico; mas, como ela tambm no falava de
outra pessoa, parecia-lhe que era antes a viva quem a imitava.
Por esse tempo comeou Meneses a freqentar a casa de Viana, com quem
travara relaes alguns meses antes. Flix fez a respeito dele um elogio
sincero e merecido. O parasita acompanhou a boa opinio do mdico com um
entusiasmo que cheirava a bons jantares. O advogado correspondeu 
expectao da viva e no tardou que se tornasse familiar na casa.
Estava curado da sua malfadada paixo. Curado e vexado, dizia ele,
quando Flix o interrogou a esse respeito.
 Estes amores so as lies da escola de meninos, concluiu Meneses
sorrindo. J saste da primeira escola; por que no sobes de estudos?
A esta metfora, um tanto rebuscada, respondeu Flix com um sorriso que
podia confessar e negar ao mesmo tempo. Meneses, que no tinha nenhuma
inteno oculta nas suas palavras, no se deu a averiguar qual das duas
expresses convinha ao sorriso do amigo. As relaes de ambos pareceram
estreitar-se mais. Com um pouco mais de expanso e confiana, teria o
mdico referido ao amigo os seus amores e a sua felicidade prxima. No
o fez, nem Meneses lho adivinhou. Teve suspeitas uma noite em que
surpreendeu os olhos da viva amorosamente cravados no mdico, mas a
indiferena com que este se levantou para ir gracejar com Raquel de todo
o dissuadiu.
Os dias foram assim passando, longos para os dois amantes, breves para
Meneses e Raquel que achavam naquela casa a mais deliciosa companhia do mundo.
Aqui podia acabar o romance muito natural e sacramentalmente, casando-se
estes dois pares de coraes e indo desfrutar a sua lua de mel em algum
canto ignorado dos homens. Mas para isso, leitor impaciente, era
necessrio que a filha do coronel e o Dr. Meneses se amassem, e eles no
se amavam, nem se dispunham a isso. Uma das razes que desviavam da
gentil menina os olhos de Meneses era que este os trazia namorados da
viva. De admirao ou de amor? Foi de admirao primeiro, e depois foi
de amor; coisa de que nem ele, nem o autor do livro temos culpa. Que
quer? Ela era formosa e moa, ele rapaz e amorvel, e de mais a mais
inexperiente ou cego, que no adivinhava a situao anterior da viva e
do mdico, ainda por entre os vus com que lha ocultavam.
Ao inverso de Flix, cujo esprito s engendrava receios e dvidas,
Meneses era antes de tudo propenso s fantasias cor-de-rosa.
Irmanavam-se no ponto de serem joguetes de sua imaginao. Meneses
facilmente entreviu um mundo de esperanas. A afabilidade com que a
viva o tratava pareceu-lhe auspiciosa; o mais inocente de todos os
sorrisos servia-lhe de base a um castelo de vento; uma expresso
qualquer, simples cortesia de sala, afigurava-lhe cheia de mil promessas
de futuro. Nem futuro nem esperanas havia; havia a candura dele, que
era boto de flor, ainda entrefechado  corrupo da vida.
Tal era o contraste desses dois caracteres, que a estrela da viva, no
sei se boa ou m estrela, reuniu a seus ps. Um, se viesse a adorar um
rosto hipcrita, desceria na escala das degradaes, com os olhos fitos
na quimera da sua felicidade; outro, ardendo pela mais anglica das
criaturas humanas, quebraria com as prprias mos a escada que o levaria ao cu.
Flix percebeu, enfim, o que se passava no corao do amigo. Sua
primeira impresso foi de clera, no porque duvidasse logo da moa, mas
por isso mesmo que outro homem se atrevia a am-la. E no havia perigo
em tal situao? A simples pergunta era suficiente para dar largas ao
esprito de Flix. Veio imediatamente a idia de que  moa no fosse
desagradvel o amor de Meneses. A vaidade, primeiro, depois o hbito,
enfim a curiosidade do corao, os levariam um para o outro. Talvez os
houvessem levado j.
Aconteceu uma vez que, falando dela, a fisionomia de Meneses, de risonha
que estava, se tornasse subitamente sria. Flix era mais hbil que ele,
no lhe foi difcil sondar-lhe o corao. O amigo contou-lhe tudo, com o
fervor que lhe era prprio, e a singeleza de um homem ainda pouco
conversado nas coisas do mundo. O mdico escutou-o com sofreguido, mas
aparentemente quieto.
 E esperanas? disse ele.
 Poucas ou muitas; no sei bem o que seja. H ocasies em que tudo se
me afigura fcil e decisivo; outras vezes desanimo e descreio de mim
mesmo. Ela  afvel comigo, mas tambm o  contigo e com os mais.
Adivinharia j alguma coisa? Quero crer que sim, e visto que se no
agasta,  bom sinal, penso eu. O pior de tudo  que eu me no atrevo a
dizer-lhe o que sinto.
Uma s palavra bastava ao mdico para arredar do seu caminho aquele
rival nascente; Flix repeliu essa idia, metade por clculo, metade por
orgulho,  mal entendido orgulho, mas natural dele. O clculo era coisa
pior; era uma cilada,  experincia, dizia ele; era pr em frente uma da
outra, duas almas que lhe pareciam, por assim dizer, consangneas,
tent-las a ambas, aquilatar assim a constncia e a sinceridade de Lvia.
Assim pois, era ele o artfice do seu prprio infortnio, com as suas
mos reunia os elementos do incndio em que viria a arder, seno na
realidade, ao menos na fantasia, porque o mal que no existisse depois,
ele mesmo o tiraria do nada para lhe dar vida e ao.
Meneses explicou ainda mais o estado de sua alma; no era amor violento
que sentia, era afeio serena e branda; tranqila, mas irresistvel
fascinao. O mdico, por um sentimento de pudor que lhe ficara, no
animou abertamente as esperanas do amigo; entretanto, a sua palavra era
to alegre, o riso de to boa feio, que o esprito de Meneses para
logo sentiu reflorirem-lhe as esperanas, se  que elas haviam secado
alguma vez.
XIII
Crise
Lvia no percebeu logo o amor de Meneses; mas, era impossvel que tarde
ou cedo o no suspeitasse. No se fingiu admirada quando ele lho confiou
depois de algum tempo de assiduidade nas Laranjeiras. Nem se admirou nem
se irritou; alm de no ser motivo para clera, havia entre ambos, como
Flix dissera um dia, certa conformidade de sentir e pensar, que de
algum modo os vinculava.
A resposta que lhe deu foi certamente fria e decisiva, no desdenhosa
nem severa. Quando viu porm a tristeza que lhe causou, esqueceu de todo
as formalidades convencionais e necessrias; procurou suavizar as penas
do moo. Tirou-lhe toda a esperana presente ou futura; no poderia
am-lo nunca. A amizade, porm, que lhe tinha, talvez o consolasse do
desengano. Isso apenas; no devia simular um amor que no sentia nem
acenar-lhe com uma felicidade que lhe no podia dar.
 Que me no pode dar! repetiu Meneses apegando-se ainda a uma esperana
fugitiva; e se eu esperar que algum dia soe a hora da felicidade que me
nega? Nada depende de ns; os prprios movimentos do corao parecem
nascer de mil circunstncias fortuitas, se no  que os rege uma lei
misteriosa, e essa... Quem sabe? um dia, talvez,  ouso cr-lo,  um dia
sentir que a simpatia que lhe inspiro se transforma, e...
 Basta! interrompeu Lvia em tom imperioso.
Meneses calou-se; ela continuou:
 O amor no  isso que o senhor diz; no nasce de uma circunstncia
fortuita, nem longa intimidade,  uma harmonia entre duas naturezas, que
se reconhecem e completam. Por mais semelhante que seja o nosso
esprito, sinto que Deus no nos fez para que o amor nos unisse.
Meneses no estava para estas averiguaes tericas;  at duvidoso que
prestasse ateno s ltimas palavras da viva. O quimrico edifcio que
to laboriosamente construria via-o ele desfazer-se em fumo, e esta s
impresso o dominava agora.
Decorreu algum tempo de completo e acanhado silncio. Estavam encostados
 janela que dava para o jardim. Meneses no ousava levantar os olhos
para ela; no era s natural vexame da posio em que se achava, era
tambm medo de contemplar ainda uma vez o bem que perdia. Lvia
compreendia esse estado da alma do moo. Lastimava, quem sabe?, no ser
ele o escolhido do seu corao. Era o mais que lhe podia dar, e era
muito. Enfim:
 Fiquemos amigos, disse ela. A amizade lhe far esquecer o amor;  mais
serena que ele, e talvez menos exposta a perecer. Conheo que sou
egosta; peo-lhe uma coisa que s a mim aproveitar. Amigos, no lhe
ser difcil ach-los; eu no os acharia to facilmente nem tais como o senhor.
Meneses tocou levemente na mo que ela lhe estendeu ao terminar estas
palavras. O pedido que ela lhe fazia era mais afetuoso que judicioso; a
um corao desenganado no h imediatamente compensaes possveis nem
eficazes consolaes. A vontade da viva o comoveu todavia; ia
agradecer-lhe quando Raquel entrou na sala.
Raquel estacou. Ambos estavam acanhados. A viva foi a primeira que
rompeu o silncio chamando a filha do coronel. Que queria dizer o
sorriso benvolo, mas sonso, que lhe pairava nos lbios? No o viu
Meneses que olhava para fora, mas viu-o a viva e estremeceu.
Meneses no voltou l durante uma semana; prolongaria a ausncia, se o
amor, fecundo de iluses, lhe no houvesse enchido o peito de esperanas
novas. Lvia tratou-o com a costumada afabilidade, talvez com
afabilidade maior. Como a confiana de Flix no se havia alterado,
Lvia usava assim uma dissimulao honesta, por simples motivo de
piedade e gratido. Estava no seu carter este modo de interpretar as
coisas, e de as tratar assim sem grande respeito s convenincias
sociais. Profanas, diria eu antes, se quisesse exprimir os verdadeiros
sentimentos da viva, que achava naquela obra de simpatia uma espcie de
misso espiritual.
s missionrias daquela espcie, se as h, desejo-lhes maior perspiccia
ou mais feliz estrela. Nem a estrela nem a perspiccia da nossa herona
estavam acima do seu corao. O sentimento que a impelia era bom; o
procedimento  que era errado. Ela no atentava nisso. Interrogava o
rosto do mdico, mais confiante e alegre que nunca, e s isso lhe
bastava a seus olhos. Fossem eles menos namorados, e veriam que a
tranqilidade de Flix era to exagerada e fora dele, que no podia ser sincera.
A esses erros e iluses, quem podiam conter os elementos de um drama no
remoto, veio juntar-se ainda a iluso de Raquel. Esta aplaudia
sinceramente os sentimentos que atribua  viva em relao a Meneses; o
sorriso com que os surpreendera no queria dizer outra coisa. F-lo
sentir um dia  viva; a energia com que ela lhe respondeu mais a
persuadiu ainda. Lvia quis ento referir-lhe tudo, o verdadeiro objeto
do seu amor e o seu prximo casamento; mas, posto que a idade no as
separasse muito, Lvia considerava-a ainda criana e reprimiu o seu
primeiro impulso.
Raquel ficou com as suas suspeitas.
Perdoemos agora  inexperincia da boa moa,  criana, como dizia a
viva  a leviandade com que insinuou ao mdico as suspeitas que
alimentava. F-lo por meio de aluso delicada e fina numa ocasio em que
o pedia a conversa. O golpe foi profundo; a prova pareceu decisiva desta vez.
Raquel notou a impresso do mdico. O sorriso inocente e brinco que lhe
entreabria os lbios repentinamente se lhe apagou. Flix olhava para ela
sem ver a mudana que se lhe havia operado. Viu-a enfim, mas no a
entendeu. Tentou fazer-se galhofeiro como sempre fora com ela; conseguiu
faz-la sorrir.
Os dias que se seguiram a este foram de triste provao para a viva.
Sabemos j que o cime de Flix era s vezes rspido. Nunca o fora mais
que desta vez. Longas cartas trocaram ambos, amargas as dela, as dele
friamente cruis e chocarreiras. Flix no lhe disse logo a causa desta
nova crise: adivinhou-a Lvia, e tudo lhe contou lealmente, sem lhe
negar a boa inteno com que tratava o corao de Meneses. Era
mostrar-se muito pouco mulher. Flix viu em tudo aquilo um tecido de
absurdos.
O que lhe disse ento foi o transunto das cartas que lhe escrevera.
Grosseiro, irnico, incoerente, tudo isso foi nas palavras com que
fulminou a pobre senhora.
Lvia no protestava. Quis interromp-lo uma vez; quando ele acabou nada
achou que lhe merecesse resposta. Estavam na sala. Olhou assustada para
todas as portas, deixou-se cair frouxamente numa cadeira e tapou o rosto
com as mos.
Flix deu um passo para ela; o movimento era bom, mas o arrependimento
veio logo.
 Adeus! disse ele.
A moa descobriu o rosto.
 Flix! exclamou ela.
O mdico parou alguns instantes. Lvia levantou-se e foi a ele
arrebatadamente. Chegou a pegar-lhe numa das mos, abatida e lacrimosa
ia comear uma ltima splica. Ele porm puxou a mo violentamente,
olhou para ela, e depois de longo silncio, repetiu:
 Adeus!
XIV
Ou captulo do acaso
Flix chegou a casa cheio de clera e desespero. Entrou impetuoso na
sala; como se precisasse de vingar em alguma coisa a suposta injria,
lanou mo do primeiro vaso que se lhe deparou e deitou-o ao cho. O
vaso fez-se em estilhas.
 Que  isso? disse uma voz estranha.
Flix estacou espantado; olhou para o vo de uma janela, donde viera a
voz, e deu com a figura de Moreirinha, comodamente sentado, com um livro
de gravuras aberto sobre os joelhos.
 Sou eu, disse o visitante levantando-se e indo apertar a mo ao dono
da casa. Admira-se de me ver aqui? Tomei a liberdade de o esperar, a
despeito das observaes que me fez o seu criado.
Flix no pde encobrir o desprazer que lhe causava a visita. Moreirinha
leu-lhe isso claramente nos olhos, e continuou:
 Talvez no lhe seja agradvel a minha presena, sobretudo porque me
parece ter alguma coisa que o molesta nesta ocasio; mas no podia ser
de outro modo...
Flix levantou os ombros.
 E maior ser ainda o seu desgosto, continuou Moreirinha, quando souber
que no lhe peo asilo s por uma hora, mas at amanh.
Dizendo isto, estendeu-lhe a mo. Flix estendeu-lhe a sua, e friamente
lhe disse que podia ficar o tempo que quisesse.
Quando o corao padece no h maior importuno que um conversador
indiferente e frvolo. Esta circunstncia veio ainda azedar mais o
esprito de Flix. A solido lhe daria talvez um blsamo salutar, se o
havia para ele. O acaso deparou-lhe, entretanto, uma testemunha diante
de quem lhe era foroso aparentar a serenidade que no tinha.
O hspede compreendeu a situao, e francamente lhe disse que o no
queria perturbar; viera como asilado, no como visita; no tinha direito
s atenes do dono da casa. Flix respondeu o melhor que pde a esta
cortesia, que alis o obrigava ainda mais. No havendo meio de escapar,
procurou ao menos ser igualmente corts. Demais, Moreirinha no era to
importuno como parecia, porque falava sempre, e no tinha o sestro dessa
outra casta de importunos que interrompem a cada passo os discursos com
perguntas... de boca e de gesto.
No se demorou o hspede em dizer a causa que o trouxera ali: era
Ceclia. Apesar da situao em que se achava, Flix no pde deixar de
lhe prestar ateno.
 Ceclia? perguntou ele.
  verdade:  o meu mau anjo. Lembra-se dos elogios que lhe fiz dela?
Eram sinceros, e eram tambm justos naquele tempo. At ento no havia
encontrado docilidade igual. No sou piegas, sabe; mas gosto de um
episdio assim. No sei que lhe fizeram  boa rapariga, que de todo
mudou e veio a ser um verdadeiro diabo. Aquelas cadeias to leves que
nos prendiam um ao outro, e que eu chamava cadeias de rosas, tornaram-se
de ferro pesado. Quero fugir-lhe e no posso; tenho tentado tudo para
escapar-lhe, mas em vo. Escondo-me em casa, na casa dos amigos, nos
hotis; onde quer que esteja l ir buscar-me, e ento Deus sabe o que
sofro. Hoje lembrou-me vir passar aqui o resto do dia e da noite com o
senhor; estou certo de que no dar comigo.
Flix ouvira atentamente a exposio do Moreirinha, no sem achar alguma
relao entre o estado dele o seu. Moreirinha referiu ento muitos
eposdios do que ele chamava sua escravido.
 E no conhece nenhum meio de lhe escapar por uma vez?
 Nenhum; ainda quando eu pudesse sair da Corte, estou certo de que ela
iria buscar-me a bordo do navio ou  portinhola do carro que me levasse.
To notvel mudana no carter de Ceclia no deixou de chamar a ateno
de Flix. Compreendeu facilmente que era obra do prprio amante. A rola
fizera-se gavio, pela nica razo de que Moreirinha lhe dera ensejo de
conhecer a prpria fora.
De abatimento em abatimento chegara Moreirinha a miservel posio
atual. No era ele homem de salutares reaes nem de resignaes
filosficas: era, sim, homem de fugir e adiar,  carter feito de
inrcia e medo, maravilhosamente disposto para os desesperos inteis e
as capitulaes vergonhosas.
 Mas, por que no sai da Corte algum tempo? disse Flix aps alguns
minutos. Sempre h de haver meio de fugir...
Moreirinha refletiu um instante.
 Por duas razes, disse ele: a primeira  que, apesar de tudo, no
deixo de gostar dela, e se pudesse escapar-lhe durante trinta dias, ia
no trigsimo-primeiro procur-la...
 A segunda razo... interrompeu Flix a quem parecia incomodar essa
ingnua confisso.
 A segunda razo, respondeu Moreirinha com hesitao,  que... no posso.
Flix desceu os olhos ao vesturio do rapaz, e viu nele o comentrio das
palavras que acabava de ouvir. Elegncia ainda havia, mas j pobre e
rafada; os botins tinham sinais de longo servio; o palet, alis bem
lanado, era de fazenda visivelmente inferior. Trazia luvas cor havana,
mas ao olhar curioso de Flix no escapou a circunstncia de que as
pontas dos dedos j estavam assinaladas por uma leve pasta de cor preta,
vestgio de aturado uso.
No era preciso grande perspiccia para compreender que aquilo tudo era
obra de Ceclia. Nem ficaria longe de verossimilhana quem afianasse
que Moreirinha estava eternamente condenado ao capricho daquela mulher.
No tinha decerto o rapaz com que lhe satisfazer todas as vaidades e
necessidades; ela incumbia-se de abrir outras verbas no oramento da
receita, mediante um bem combinado sistema de impostos.
Flix compreendeu tudo isso de relance, e procurou trazer o esprito de
Moreirinha a idias mais alegres, menos ainda por ele que por si.
No foi coisa difcil. Ao esprito de Moreirinha repugnavam as
preocupaes graves. Aproveitou o ensejo que o mdico lhe ofereceu e
entrou a falar das coisas correntes do dia. Dos mil episdios da vida de
certa classe, no havia gazeta melhor informada que o amante de Ceclia.
Os novos amores de uma, os arrufos de outra, o dito chistoso desta, a
aventura daquela, tudo ele sabia em primeira mo. No lhe perguntassem
por estrias literrias nem crises polticas; mas a moblia com que
Fulano presenteara a certa dama, a ceia equvoca em que Sicrano chegara
a beber champagne por uma botina, esse era domnio seu, desde que os
amores de Ceclia de todo o separaram da sociedade.
Isto no recreava nem interessava, mas enchia o tempo e desde que estava
obrigado a sofrer o hspede, era melhor sofr-lo assim.
Era impossvel, entretanto, no volver o esprito  sua prpria
situao. De quando em quando o mdico esquecia o narrador, e o seu
pensamento ia esvoaar em derredor da viva. Foi numa dessas ocasies
que lhe chegou uma carta dela. Flix abriu-a sofregamente e leu-a duas
vezes. Era longa; recapitulava a histria daqueles ltimos meses, e
conclua fazendo um apelo  razo do mdico. Adivinhava-se que a moa
escrevera com lgrimas, mas j no havia o tom splice com que em
anlogas ocasies lhe pedia a reconciliao.
O tempo alguma obra havia j feito no esprito de Flix; a carta veio
consum-la. Flix no estava ainda certo da inocncia da viva, mas j
estava certssimo da brutalidade da sua exploso, e este reconhecimento
era uma dor nova, quase to profunda como a outra.
Seu primeiro impulso foi ir ter com Lvia; desistiu dele e preferiu
escrever-lhe uma carta. Trs vezes a comeou sem lograr chegar ao fim.
Vacilava entre ser afetuoso ou severo; num caso lembrava-lhe a perfdia
possvel, noutro, a provvel inocncia; temia ser injusto ou ridculo.
Como todos os caracteres indecisos, no achou mais recurso que uma
intil desesperao.
Anoitecera; Moreirinha estava mais alegre que nunca, e pagava a
hospitalidade do mdico com as suas galhofas costumadas. No contava com
Ceclia, mas adivinhou que era ela quando ouviu parar um carro  porta.
 Estou perdido! disse ele desatando um longo suspiro.
Era ela.
Cansada de esperar que lhe levassem resposta do recado que dera, Ceclia
desceu do carro e entrou em casa. Ao chegar  porta relanceou os olhos
pela sala, onde no viu desde logo o amante; Moreirinha metera-se no vo
de uma janela. Flix olhou severamente para Ceclia, como quem lhe
estranhava a liberdade que tomara. Mas onde iam j as flores de antanho?
A dcil rapariga de outro tempo tornara-se mulher desgarrada e solta.
Caminhou afoitamente para o mdico e estendendo-lhe a mo:
 Como ests, mon vieux? disse com um risinho de mofa.
Nessa ocasio descobriu o amante, que parecia entretido em contar as
estrelas. Foi a ele, e soltava j as primeiras palavras de uma veemente
apstrofe, quando Flix julgou prudente intervir a tempo de evitar um
escndalo; reconciliou-os como pde, e secamente os despediu.
Lvia estava  janela desconsolada e triste, enquanto Raquel, no menos
triste que ela, executava no piano uma melodia adequada  situao de
ambas. No viera resposta do mdico; a viva sentia desvanecer-se-lhe a
esperana de tantos meses, e com ela o futuro que to perto se lhe
afigurava. Estas eram as suas melanclicas reflexes, quando viu parar 
porta de Flix um carro, descer uma mulher, entrar, sair depois com um
homem e partirem ambos.
O golpe foi terrvel e mais profundo que nunca. A viva no temia
decerto uma rival triunfante; mas via e sentia o desprezo do homem por
quem tantas lgrimas chorara naquele dia. Se o mdico lhe aparecesse
ento, ela reconheceria o seu engano, e a alegria de se sentir estimada
lhe daria foras contra a dor de se ver ofendida. Flix no veio. Lvia
mal pde resistir  humilhao. Uma lgrima,  a ltima que lhe restava,
 foi a nica expresso do seu imenso desespero.
XV
Enfant terrible
No dia seguinte, logo cedo, Viana foi  casa do mdico. No ia almoar
com ele; ia convid-lo para jantar.
 Fao anos hoje, disse o parasita, e quisera ter  mesa alguns amigos,
poucos. O senhor  dos primeiros, no pode faltar.
 No faltarei, respondeu Flix.
Viana emitiu em seguida algumas idias a respeito da maneira por que
encarava um jantar de anos. No devia compreender seno amigos ntimos,
por ser festa do corao, alegria domstica, em que tudo o que no
falasse a lngua da amizade seria estrangeiro ou talvez inimigo. No
bastava gosto para a escolha de tais amigos; era preciso jeito e
sagacidade para discernir os que se prendiam pelo afeto dos que aderiram
pelo costume. Esqueceu-lhe o principal; esqueceu lhe dizer que, no seu
ponto de vista, um jantar de anos era tambm um jantar a juros.
Flix aceitou o convite com sofreguido; esperava um pretexto para
voltar  casa de Lvia. Pungia-o ainda o cime, mas a irritao passara,
e em lugar dela nascera o desejo de ver restabelecida a harmonia antiga,
no por ato de vontade prpria, mas por uma completa justificao da
amada.
Com tais sentimentos saiu de casa. Lvia estava  janela quando o viu
chegar; foi receb-lo no patamar da escada que dava para o jardim. Ao
apertar-lhe a mo, entre triste e risonha:
 Era eu que devia perdoar-lhe, disse; mas seria ofender o seu orgulho.
 O meu orgulho? Perdoar-me? repetiu Flix.
 Sim, disse ela fazendo um gesto afirmativo.
Leu-lhe Flix no rosto to sincera tranqilidade, que esteve quase a
aceitar a reconciliao. Hesitou algum tempo; deitou os olhos  sala, e
viu atravess-la na direo da escada a figura de Raquel. Ento
lembrou-lhe a semiconfidncia que esta lhe fizera, e amargamente
respondeu  viva:
 Sejamos srios.
Lvia empalideceu. Quis responder alguma coisa, e no pde; Raquel
estava com eles.
Pouco depois chegaram o coronel e D. Matilde; Meneses no tardou muito.
Algumas pessoas mais completavam o pessoal da festa. A presena de
estranhos constrangia a viva e o mdico; era foroso ser alegre como os
outros, e isso custava a ambos, mais ainda a ela que a ele.
O jantar passou sem novidade de vulto. As pilhrias do coronel, e os
brindes repetidos de Viana entretiveram a sociedade. Flix tentou seguir
a corrente da alegria e logrou obt-lo. No reparava,  ainda mal!  que
a fronte da viva parecia entristecer-se mais; seus olhos procuravam
antes os de Meneses que os dela. Meneses tinha os seus embebidos nela.
No fim do jantar Viana props que fossem conversar na chcara. Meneses
pediu que a filha do coronel tocasse primeiro uma melodia que lhe ouvira
alguns dias antes. Raquel consentiu. A melodia era extremamente
melanclica, e Raquel tocava-a com alma. O tom da msica influiu nos
nimos; no havia s o simples silncio da ateno, mas o recolhimento
da tristeza.
Em alguns dos convivas esta impresso era mais natural e foi mais
pronta. O mdico, entretanto, forcejava, no s por sacudir a estranha
influncia, como por afetar completa iseno de esprito.
Lus estava em p diante dele, com os cotovelos fincados nos seus
joelhos. Flix brincava-lhe com os cabelos e ambos sorriam um para o
outro, como se fossem os nicos estranhos  comoo geral.
Ora, no meio do absoluto silncio da sala, apenas interrompido pelas
notas soltas e magoadas que os dedos de Raquel tiravam do piano, o
filhinho de Lvia fez esta singela pergunta ao mdico:
 Por que  que o senhor no se casa com mame?
Lvia estremeceu. Raquel cessou de tocar e volveu rapidamente a cabea
para o grupo donde partira a voz. Dos outros convivas uns sorriam da
inocente indiscrio do menino, outros observavam a viva, ningum
reparava em Raquel.
A filha do coronel deixou imediatamente o piano. Viana lembrou ento o
passeio da chcara. Todos aceitaram o alvitre e saram da sala. A
espcie de acanhamento que a pergunta do menino deixara em todos, para
logo desapareceu de alguns.
Lvia no sara logo. A alguma distncia repararam na falta dela, e
Raquel props-se a ir busc-la. Achou-a a abraar e beijar o filho.
Conquanto ela fosse me extremosa, no havia razo imediata para aquela
exploso de ternura. Raquel estacou sem compreender nada.
A viva olhou para ela aconchegando o filho ao corao.
 Que queres? perguntou.
Raquel no respondeu. A pouco e pouco se lhe ia alumiando o esprito.
Olhou longo tempo para ela, como se  fora quisesse arrancar-lhe a
explicao, que o seu corao pressentia. Enfim, pareceu adivinhar tudo.
 Ama-o ento? perguntou ela com os lbios trmulos.
 Creio que o amei, respondeu Lvia baixando tristemente a cabea.
Se o esprito de Raquel no fosse ainda o regao da castidade, aquela
confisso mentirosa da viva, porque ela ainda amava, podia fazer-lhe
nascer alguma desairosa suspeita. Mas Raquel no viu naquelas palavras
mais do que um amor medroso e no compreendido. Sua eloqente resposta
foi apert-la nos braos.
Lvia apertou-a com fora. Era a primeira vez que o acaso lhe deparava
uma confidente. Alteava-se-lhe o seio, tmido de suspiros; duas lgrimas
lhe romperam dos olhos e foram morrer na espdua de Raquel. O menino
interrompeu essa doce efuso. Lvia respirou largamente, e beijando com
ternura a moa, disse:
 Vamos.
Mas Raquel no se movia. Tinha os olhos postos nela, os lbios
apertados, os braos pendentes. Lvia sacudiu-lhe brandamente os ombros.
 Que tens? disse.
 Nada, suspirou Raquel.
Lvia estremeceu. Sbito relmpago lhe atravessou as sombras do
esprito. Interrogou-a de novo, mas foi em vo. Ento sentiu em si todas
as energias do seu temperamento, e com um grito, que a clera abafava,
exclamou:
 Ah! tu o amas tambm?
Raquel no lhe respondeu. Se a viva lhe houvera falado com brandura 
provvel que lhe fizesse plena confisso de seus sentimentos. Mas, s
palavras colricas de Lvia, a pobre moa comeou a tremer.
 Tu o amas tambm! repetiu Lvia com voz surda e concentrada.
Raquel curvou o corpo, ps as mos em atitude de splica, e murmurou com
voz trmula:
 Perdo!
Pairou nos lbios da viva um sorriso sarcstico. Raquel repetiu ainda
muitas vezes a palavra perdo; mas a nica resposta da sua rival foi
pegar-lhe do brao e indicar-lhe a porta.
 Vai ter com ele! exclamou.
Depois saiu arrebatada da sala. Raquel magoada pela violncia do gesto
da viva, acompanhou-a com o olhar at  porta. Os olhos da cora
ofendida no chamejavam dio contra a leoa irritada.
XVI
Raquel
Quando Raquel ficou s atirou-se ao sof, trmula, fria, com os olhos
secos, sem compreender bem aquele drama ntimo, mas sentindo-lhe j
algum terrvel desenlace. O que ela via claro  que a outra amava o
mesmo homem, e com tal fora que cedera a um impulso de clera, to
contrrio aos seus hbitos de brandura.
As reflexes de Raquel no passaram da. Nem todas as almas podem
encarar as grandes crises. Quer-se um esprito robusto para estas
situaes complexas. Raquel ficou simplesmente atnita e abatida.
Na chcara foi notada a ausncia das duas. Viana deixou os hspedes e
foi  sala.
 Que faz aqui? perguntou ele  filha do coronel.
Raquel ficara perturbada com a presena de Viana, e ainda mais com a
pergunta. Enfim, balbuciou uma resposta infantil.
 Estava pensando numa coisa, disse ela.
 Onde est Lvia? perguntou Viana sem atender  resposta da moa nem ao
sorriso forado que lhe entreabria os lbios.
 Creio que est incomodada; foi para dentro.
 Coisa de cuidado?
 Parece que no.
Viana deu duas voltas na sala e saiu para a chcara, pedindo  moa que
l se fosse reunir aos outros.
Flix, entretanto, viera at o jardim, que ficava em frente da casa. Mal
havia dado alguns passos quando viu encostada  porta da sala a filha do
coronel, com os olhos postos no cu, acaso pedindo a Deus que estendesse
a mo para subir at l. Era sol-posto, hora de melancolia; tudo ali em
volta assumia a cor pardacenta e luminosa dos ltimos instantes da tarde.
Flix caminhou cautelosamente para a casa, subiu por um dos lanos da
escada, e surpreendeu a moa, dizendo-lhe:
 Est linda assim; mas ns precisamos v-la c fora.
Raquel retraiu o corpo sem ousar dizer uma s palavra. Flix
estendeu-lhe a mo convidando-a a descer. A moa entrou para dentro; o
mdico deu ainda um passo, mas ela, fazendo um gesto suplicante, disse
com voz aflita:
 Pelo amor de Deus, saia!
Flix no resistiu; desceu ao jardim e caminhou para a chcara a
reunir-se s outras pessoas. Em vo buscava conjeturar a causa daquela
splica. Era impossvel conciliar o procedimento de Raquel com a
familiaridade e a confiana que entre ambos havia. A razo da diferena
devia ser grave. Mas qual seria ela?
Os convidados retiraram-se cedo. Meneses e Flix foram os ltimos que
saram, ao lado um do outro, ambos entregues a reflexes diversas,
porque Flix pensava nas palavras de Raquel, Meneses na pergunta do
menino.
A filha do coronel desceu ao jardim. Era noite fechada. Sentou-se num
banquinho, e ali ficou em triste meditao. A pobre moa tremia de
susto, de incerteza, de apreenso. No ousava encontrar os olhos de
Lvia; tinha-lhe medo, medo pueril, escusado, sem razo, mas enfim medo,
e nada havia que tranqilizasse a sua alma franzina e pusilnime.
Como benefcio celeste, entraram-lhe a correr as lgrimas, at ento
retidas pela presena de estranhos. Ningum lhas viu, que a noite era
fechada e o stio ermo; mas a aura estiva, que comeava a bafejar a
folhagem ressequida do sol, acaso lhe ouviu os soluos, acaso lhos levou
ao seio de Deus. Veio ento, de influxo divino, uma doce consolao s
suas mgoas solitrias.
No ousando voltar para dentro, determinou esperar ali o irmo da viva,
que fora acompanhar um amigo da vizinhana. Pedir-lhe-ia ento para a
levar no dia seguinte  casa de seus pais. No hesitava entre a ternura
deles e o dio de Lvia.
Assim refletia ela, quando sentiu passos no jardim. Voltou-se; era a
viva.
 Ah! exclamou Raquel levantando-se, trmula e assustada; pelo amor de
Deus! eu no lhe fiz mal nenhum!
Lvia acercou-se de Raquel; travou-lhe brandamente das mos, apesar do
esforo com que ela buscava esquivar-se, e disse:
 Que mal me farias tu, criana? A culpada sou eu; sou eu que te peo
perdo, porque fui cruel e injusta, e cedi ao egosmo do meu corao...
Perdoa-me!
 Perdo-lhe tudo! respondeu Raquel.
Caram nos braos uma da outra. Jamais duas rivais se estreitaram mais
sinceramente amigas do que essas duas. Largos minutos correram sem que
nenhuma delas falasse; refletiam talvez, talvez no pudessem vencer o
acanhamento da sua posio. Lvia foi a primeira que rompeu o silncio:
 Como  que vieste a am-lo? perguntou ela.
 No sei, respondeu ingenuamente Raquel; nasceu-me o amor sem que eu
reparasse nele. Nem sei se nasceria; creio que foi apenas transformao,
porque eu de pequena me acostumei a admir-lo. Foi talvez a admirao
que se fez amor quando eu cresci.
 Nunca lho deste a entender?
 Oh! nunca.
 E ele?
 Percebi que me queria. Brincava comigo, como quando eu era criana:
nada mais.
 E resignavas-te  sorte?
 Que poderia fazer seno isso? Alguma esperana tive nestes ltimos
tempos; em que a fundava, no sei; talvez na circunstncia de nos vermos
mais a mido. Enganava-me; penso que no nasci para ser feliz.
 Quem sabe? disse a viva. Nem sempre o nosso corao acerta; pode ser
que mais tarde te aparea outro a quem ames do mesmo modo...
 Do mesmo modo? interrompeu Raquel com surpresa.
Lvia pegou-lhe nas mos.
 No te parece que assim seja? perguntou.
 Oh! no. Chame-me criana, se lhe parece; a senhora h de saber mais
do que eu, naturalmente; mas o corao me diz que eu no poderia amar a
ningum mais.
 A ningum mais! murmurou a viva amargamente. Concentraste ento toda
a seiva do teu corao neste amor silencioso e quimrico? No digas
isso; amars mais tarde a outro que te amar tambm, e sers feliz,
creio eu. Murchar esta primeira flor do teu corao, mas, h seiva nele
para dar vida a outra flor, to bela talvez, e com certeza mais
afortunada. O contrrio, Raquel, seria injustia de Deus. O amor  a lei
da vida, a razo nica da existncia. Encher de uma s vez a alma, sem
que ningum lhe beba o licor divino, e regressar ao cu sem ter
conhecido a felicidade na terra, nem o querer Deus, nem o temers tu.
Falas pela boca da tua amargura de hoje; espera a ao do tempo, que 
bom amigo.
Raquel meditava. Era a primeira vez que ela ouvia falar daquele modo em
coisas do corao. A linguagem da viva servia-lhe a um tempo de
consolao e de luz.
Lvia falou ainda muito tempo, sem preconceito nem reserva; no falou
como rival, seno como amiga e me. No reparava sequer que lhe dava
armas contra si. Falaria talvez de outro modo se se considerasse feliz;
mas, como a situao de ambas era igual, ela entornou na alma de Raquel
todo o sentimento de que a sua alma estava cheia, e foi eloqente,
porque foi sincera.
 Sim, disse Raquel, quando ela acabou; compreendo tudo isso que me est
dizendo. A senhora sabe amar... E ainda o ama, no?
Lvia calou-se.
 Que lhe custa dizer? insistiu a donzela.
 Custa-me lgrimas. Eu no te poderia explicar nunca este sentimento
que me nasceu como erva ruim para me envenenar a existncia, e que eu
tanto tempo supus que seria a coroa de minha vida... No te quero
enfadar, que so tristezas para isso.
 Mas ento ele? aventurou Raquel.
 No me perguntes mais; afirmo-te s que o amei, que talvez tornasse
am-lo...
 E que ainda o ama, concluiu a rival.
Lvia esteve calada alguns instantes, procurando ler-lhe no rosto,
apesar das sombras da noite, as impresses que lhe iriam na alma.
 No! j o no amo! disse a viva com esforo.
Seguiu-se um longo silncio.
 E se o amasse, disse enfim Lvia, que farias tu?
 Nada! respondeu resolutamente Raquel.
 Deveras, nada?
 Pediria a Deus que a fizesse feliz, e estou que Deus me ouviria.
 Eras capaz disso? perguntou a viva segurando-lhe nos pulsos
fitando-lhe os olhos em cheio.
 Era, respondeu ingenuamente a donzela.
Lvia no disse palavra. Se das comoes da sua alma algum vestgio lhe
subiu ao rosto, disfarou-lho a noite s vistas de Raquel. Ambas ficaram
pensativas algum tempo. Uma forte rajada f-las estremecer. Era sinal de
chuva prxima; nuvens negras comeavam a povoar o cu. As duas
recolheram-se a casa.
 Vales mais do que eu, dizia a viva entrando com Raquel na sala. Eu
sou apenas egosta; egosta e nada mais. Guarda essas flores evanglicas
do sacrifcio, do perdo e do amor. So raras; e por isso  que s um anjo.
Foi diferente a noite que ambas passaram.
Raquel estava mais tranqila depois da conversa no jardim; mas, que
destino teria a flor de sua alma, lrio transformado em goivo, vivido de
lgrimas, medrado no silncio? No lhe apeteciam lutas. Faltavam-lhe as
armas de combate:  a astcia ou a energia; faltava-lhe principalmente o
desejo de despertar um corao que sabia no ser seu.
Mas esse corao possua-o acaso Lvia? Parecia-lhe que no; o mistrio,
porm, a reticncia, a indeciso das palavras da rival, tudo se lhe
afigurava cobrir um drama que ela no compreendia nem conjeturava.
No nimo de Lvia outras foram as preocupaes. Para ela, a situao era
mais clara. Sentia desvanecer-se o amor de Flix, e via surgir uma rival
perigosa. Tinha medo da ignorncia de Raquel; receava que a inocncia
dessa alma ainda em flor pudesse dominar o esprito rebelde de Flix; e
tal seria a catstrofe das suas esperanas.
E quando todas essas sombras lhe povoavam o esprito, e o corao lhe
pulsava com mais fora, perguntava-lhe a conscincia se lhe era lcito
opor algum obstculo  felicidade da donzela, dado que esta vencesse o
corao do seu noivo.
Lvia no dormiu a noite toda. No dia seguinte, apenas a claridade da
manh lhe entrou no quarto, a viva levantou-se, vestiu  pressa um
roupo, e foi ao quatro de Raquel.
A filha do coronel dormia profundamente. Repousava de suas longas
reflexes. Lvia abriu o cortinado muito ao leve, contemplou-lhe o rosto
sereno e risonho, os olhos cerrados, e os lbios semi-abertos como se em
sonhos murmurasse palavras de amor. Os cabelos esparsos lhe serviam de
resplendor  cabea anglica.
 No! pensava Lvia, o amor no dorme assim tranqilo em dias de
infortnio e desespero. Criana inconsciente que te supes alar s
regies do sol, que sabes tu dos precipcios da viagem, que conheces tu
das voragens do corao?
 Ah! estava aqui! exclamou Raquel acordando; ainda bem!
 Por qu?
 Sonhei que morria, e que era recebida no cu. Fora bom morrer assim;
mas eu sempre tinha pena de deixar a terra. Acordou hoje muito cedo.
 Queria dar um passeio, disse Lvia indo abrir a janela, mas a manh j
est quente.
Raquel olhou para ela; viu-lhe os olhos pisados e o rosto desfeito.
Compreendeu que no havia dormido, e que chorara.
 Ama-o ento muito? perguntou ela a si mesma.
XVII
Sacrifcio
A situao das duas moas demandava um termo. Raquel foi a primeira que
resolveu deixar completamente o campo; tinha no seu restabelecimento uma
excelente razo para regressar a casa.
Lvia compreendeu a inteno da amiga quando esta lhe comunicou a sua
resoluo. Era to simples e tocante o sacrifcio, que a viva no
resistiu a um impulso generoso. Respondeu-lhe com um beijo. O beijo era
de admirao; Raquel acreditou fosse de agradecimento, e sorriu com
tristeza.
Ficou assentado que Raquel iria no domingo prximo, e nesse sentido foi
avisado o coronel.
Estavam ainda no dia seguinte ao do episdio do menino. Nenhuma das suas
circunstncias esquecera ao mdico. A esquivana de Raquel continuava a
preocupar-lhe o esprito, no menos que a infundada suspeita que nutria
a respeito da viva. Era meado do ms de dezembro. A data do casamento
estava prxima. Tudo exigia um desenlace a tempo.
No tardou que o mdico descobrisse os sentimentos que a filha do
coronel nutria a seu respeito. Surpreendeu-a perto de uma janela
interior, a beijar uma pgina de um lbum de retratos. Aproximou-se
cauteloso, lanou os olhos  pgina e viu nela o seu prprio retrato.
A descoberta f-lo sorrir. Seria aquilo a razo da mudana que notara
nela? Nesse caso sabia j da afeio que o ligava  viva, talvez do
projetado casamento. Era possvel tambm que a volta dela  casa de seus
pais no tivesse outro motivo.
Por mais isento que seja o esprito de um homem,  raro que o no
lisonjeie uma afeio assim, medrosa e silenciosa, nascida e vivida na
soledade da alma. Flix sentiu primeiro essa impresso de egosmo. Veio
depois outro sentimento melhor,  o de uma respeitosa admirao. Seu
pensamento entrou a conjeturar a data daquele singular amor;  proporo
que se internava nos dias do passado, ia combinando uma srie de
episdios esparsos, aparentemente vagos, agora significativos e
eloqentes. No era recente a afeio dela; era talvez anterior  sua
enfermidade.
Chegara o sbado, vspera da partida de Raquel. Era de noite. Flix
estava em casa da viva, e ambos, e Raquel, e at Viana, todos pareciam
preocupados e tristes. O mdico olhava para a filha do coronel, sem
reparar que os olhos de Lvia seguiam os seus e como que buscavam ler
por eles os sentimentos do corao.
Raquel esquivava-se s atenes do mdico. Em certa ocasio, porm, 
achando-se Flix mais afastado,  aproximou-se dele com um livro.
 J leu este romance? perguntou ela.
 Deixe ver, disse Flix, convidando-a com um gesto a sentar-se.
Raquel no se sentou; estendeu-lhe o livro, e olhou com insistncia para
o mdico.
Flix pegou no livro e consultou a primeira pgina; ia voltar
distraidamente a segunda, quando lhe caiu nos joelhos um papelinho
dobrado. Raquel voltou assustada a cabea para o lado de Lvia, que de
p, junto do piano, tirava notas soltas do teclado, sem olhar para o
grupo. Raquel fez ao mdico um sinal de silncio e afastou-se dele.
Flix guardou o papel no bolso.
 Quase uma criana! ia ele pensando quando se retirava para casa depois
do ch.
Quando ali chegou no se deu ao trabalho de tirar o chapu. Abriu a
carta logo na sala.
Dizia a carta:
Pela memria de sua me, no seja cruel! Lvia ama-o muito. No a faa
morrer, que seria um pecado!
Flix esfregou os olhos e releu o bilhete.
No havia neg-lo; a letra era de Raquel e o contedo era uma splica a
favor da rival. No sorria o mdico; estava atnito. A verdade, to
inverossmil desta vez, metia-se-lhe pelos olhos, singela, eloqente,
espontnea. Espontnea seria? Flix fez essa pergunta a si mesmo, e
afirmativamente lhe respondeu; no atribua  viva tamanha influncia,
nem  donzela tamanha submisso, que uma inspirasse e a outra escrevesse
aquela carta. A coisa pareceu-lhe o que realmente era: um sacrifcio de
Raquel.
Flix no era homem de grandes expanses; mas, se Raquel estivesse
diante dele naquela ocasio, era capaz de cair-lhe aos ps. Abafar uma
afeio silenciosa, a primeira talvez, para pedir a felicidade de outra
mulher, era abnegao rara, que o surpreendia.
A ao de Raquel fez-lhe esquecer por algum tempo a viva, objeto da
carta que acabava de ler. Raquel no afirmaria to claramente os
sentimentos da amiga, se no tivesse plena certeza deles. Como
conciliaria, entretanto, a afirmao de hoje com a suspeita de ontem? A
mesma Raquel lhe insinuara diversa inclinao da viva. Naturalmente
reconhecera o contrrio. A idia da reabilitao de Lvia para logo
dominou o esprito de Flix. Seu amor existia no mesmo estado de fora e
vio; fcil de desmaiar, no era menos fcil de se restabelecer. No dia
seguinte parecia desfeita a nuvem que por alguns dias o abafara.
Foi a casa da viva; era uma hora da tarde. Tinha curiosidade de encarar
a filha do coronel. Achou-a to alegre e travessa como era dantes. Era
assim aparentemente; os olhos estranhos no viam a mgoa interior e
encoberta que lhe roa o corao. Seu infortnio tinha pudor.
Ao mdico era impossvel encobrir esse estado. A tocante generosidade da
moa fez-lhe bem ao corao. Teve ele a delicadeza de no tratar a viva
por modo que magoasse a donzela; mas, to outro se mostrava do que fora
at ento, que a viva no pde resistir-lhe, e aquele dia foi muito
menos triste que os outros.
As travessuras de Lus faziam coro com as de Raquel. A porta da sala
estava aberta. Lus desceu os degraus que comunicavam da sala com o
jardim, na ocasio em que Lvia fechava uma pulseira de Raquel. Quando a
viva deu por falta do filho, correu  porta. O menino corria na direo
da porta da rua. A me desceu atrs dele.
Raquel ia descer tambm; Flix pegou-lhe na mo. A moa estremeceu toda;
afoguearam-se-lhe as faces, e ela balbuciou:
 Leu a minha carta?
 Li, respondeu Flix cravando nela um olhar que era a um tempo de
simpatia e de pena; li, e no sei se deva crer o que l me diz.
  a verdade.
 Mas ento supe...
 Que ela o ama; afirmo-lho.
 E que eu a amo tambm? perguntou com hesitao.
 Isso... creio, assentiu Raquel, abaixando os olhos.
Flix calou-se. Decorreram dois ou trs minutos de silncio. Raquel
continha com dificuldade os movimentos do corao. Preferia estar a cem
lguas dali, mas lembrava-se da outra e isso lhe dava nimo.
O mdico foi o primeiro que falou:
 Como sabe que ela me ama?
 Sei, respondeu Raquel sorrindo com afetao, e  quanto basta. Demais,
nenhuma moa escreveria semelhante carta a um homem se no tivesse
certeza do que afirmava. S lhe peo uma coisa: destrua essa carta. Nada
vale, mas eu no quisera que a conservasse.
Lvia aproximava-se; sentiram passos na escada de pedra. Raquel correu 
porta, enquanto Flix tirava a carteira do bolso, e procurava o bilhete
de Raquel. Foi nessa ocasio que o coronel e a esposa chegaram. As duas
moas desceram a receb-los. Flix desceu tambm, e caminhou a alguns
passos de distncia, com o corao dividido entre o amor de Lvia e a
admirao de Raquel.
Os pais da moa jantaram nas Laranjeiras. Lvia acompanhou depois toda a
famlia  cidade. Na ocasio de se despedir do mdico, a filha do
coronel sentiu que as foras lhe iam faltando. Reagiu, porm, sobre si
mesma, e sem olhar para ele, estendeu-lhe a mo, que o mdico
respeitosamente apertou. Ao voltar-lhe as costas um suspiro lhe saiu do
peito; partira-se o ltimo vnculo da esperana.
XVIII
Renovao
Lvia no ignorou muito tempo a existncia da carta de Raquel. Flix
mostrou-lha no dia seguinte, desejoso de saber como havia nascido no
esprito da moa a convico to generosamente afirmada.
 Contei-lhe tudo, disse a viva, quando supunha que tudo estivesse
morto no teu corao. Ela condoeu-se de mim, e vejo agora que no era
sentimento estril o que me revelara. Pobre Raquel!
 Esta carta foi excelente consolao, Lvia, porque eu sentia uma
dvida cruel a teu respeito... Mas a que propsito lhe falaste?
Lvia hesitou alguns instantes. Ou melhor, reprimiu o seu primeiro
impulso, que foi referir ao mdico o amor e a confisso de Raquel.
Estaria no seu carter se o fizesse; mas um vislumbre de reflexo
atalhou essa confidncia prestes a subir-lhe aos lbios. Recearia que a
notcia de um amor to generoso o desviasse dela? Pode ser. A explicao
que lhe deu foi breve.
 J lhe disse, respondeu a moa; confiei-lhe a causa das minhas mgoas,
num dia em que mostrava condoer-se de mim. Se errei a culpa  sua.
Flix no insistiu. Pela sua parte, deixou tambm de referir a razo da
recente frieza nas suas relaes com ela. A viva, que o sabia, achou
mais acertado no lhe falar nisso.
Tantas vezes apagada no cu, reaparecia enfim a estrela da felicidade, e
para sempre? Era caso de dvida,  vista do passado; mas a credulidade
da viva estava acima da sua experincia. A ternura de Flix nunca fora
mais espontnea e viva do que ento. O corao como que se lhe renovara.
O sacrifcio de Raquel no era estranho a essa reao, que fazia reviver
todas as esperanas da amada.
A alegria tornou a florir no rosto e no peito da viva. Ela possua a
memria da felicidade, no a das tristezas. O que eram reminiscncias de
infortnio apagaram-se com o tempo; a serenidade dos primeiros dias foi
s o que lhe ficou.
Houve em certa ocasio uma leve nuvem passageira; foi a presena de
Meneses, que ainda freqentava a casa da viva. A maneira por que Flix
recebera o amigo fez compreender  moa que no corao dele havia ainda
um travo de amargura. No lhe foi difcil extingui-lo de todo.
Referiu-lhe ingenuamente tudo o que se passara entre ela e Meneses, a
branda austeridade com que respondera s suas declaraes amorosas,
enfim o procedimento honesto do rapaz.
Flix abanou a cabea.
 Censuras-me? inquiriu a moa.
 No, afirmou o mdico. Lastimo-te.
 A inteno era boa.
 Seria; mas a vida no  fbrica de sentimentos; no se vive como se
romanceia. mpetos de generosidade so muito bons, quando se no corre
perigo nenhum. Quem te afianava a honestidade desse moo?
 Oh! adivinha-se!... Queres uma prova? Ele no voltar c.
 Por qu?
 Creio que percebeu tudo.
O mdico ficou algum tempo pensativo. Duas vezes tentou falar e
conteve-se. Enfim disse:
 No  preciso perceber aquilo de que h de ter certeza amanh.
Casamo-nos na segunda semana de janeiro. A notcia ser pblica desde j.
Flix esperava um movimento expansivo da viva ao ouvir esta declarao.
Lvia no se alterou; apenas empalideceu.
 Tens razo, disse Flix depois de olhar para ela algum tempo; eu no
tenho direito a mais. Tantas vezes te iludi, que  legtimo o teu receio.
No dia seguinte fez o mdico oficialmente o seu pedido na presena de
Viana, que abraou com entusiasmo o futuro cunhado.
 Isto devia acabar assim mesmo, disse ele; h muito que eu previa e
desejava o casamento. Nasceram um para o outro; esto na fora da idade;
no podia haver melhor unio. Pela minha parte desistirei at, se for
preciso, da viagem que o senhor me prometeu. Lembra-se? No faz mal. O
que eu quero  v-los felizes. Eu logo vi que tramavam alguma coisa, mas
gabo-lhes a habilidade. D-me outro abrao, doutor.
Flix prestou-se s expanses do parasita. Lvia contemplava o noivo com
adorao. Para ambos eles o mundo inteiro havia desaparecido. Inteiro
no; Viana fez casualmente aluso a Raquel, e essa intempestiva
recordao entristeceu a moa. Ela via que a sua felicidade era causa da
desventura da amiga, e agora que a tinha quase realizada, sentia
morder-lhe um piedoso remorso.
Adiantaram-se os preparativos do casamento. Lvia pediu ao mdico a
supresso de todo aparato, para no ferir o corao de Raquel, pensava
ela. A publicidade seria apenas a necessria. No contava com o irmo,
que se encarregou de dar ao consrcio propores de acontecimento.
A notcia foi referida por ele na rua do Ouvidor, esquina da rua
Direita. Da a dez minutos chegara  rua da Quitanda. To depressa
correu que um quarto de hora depois era assunto de conversa na esquina
da rua dos Ourives. Uma hora bastou para percorrer toda a extenso da
nossa principal via pblica. Dali espalhou-se em toda a cidade.
Foi geral o espanto. Ningum acreditava que Flix se determinasse ao
casamento. Falava-se,  verdade, no namoro; mas, alm de ser boato sem
importncia nem generalidade, alguns no atribuam ao mdico mais do que
a inteno de um passatempo, ao passo que outros davam s relaes entre
ele e a viva um carter absolutamente ntimo, sem nenhuma aspirao de
legalidade.
A convico entrou enfim no esprito pblico. Moreirinha atribua o caso
a um desconcerto cerebral do mdico. O Dr. Lus Batista no deu opinio;
parecia-lhe indiferente o casamento da viva.
Raquel recebeu a notcia sem admirao, mas com mgoa. Esperanas no as
tinha j; o mal que nos no espanta no nos di contudo menos por isso.
Quem lhe deu a notcia foi Meneses, que a recebeu com filosfica
resignao. O amor deste tinha-se convertido numa espcie de adorao
religiosa. Achava na mulher amada todas as qualidades que podiam seduzir
um homem como ele. Havia, alm disso, aquele vnculo simptico de duas
criaturas que viviam mais da imaginao que da vida prtica. A recusa de
Lvia no rompera, transformara as cadeias que o prendiam a ela.
No acontecia o mesmo a Raquel, e esta circunstncia no escapou ao
rapaz, que habilmente a interrogou, e adivinhou tudo. Meneses sacudiu
lentamente a cabea, mas no lhe disse palavra. Apenas pensou consigo
que, se o acaso ou a providncia houvesse disposto as coisas de outro
modo, ambos eles podiam ser felizes.
Meneses repeliu a idia de fazer confidncias  filha do coronel; tanto,
porm, que lhe falou da viva, que a outra alguma coisa desconfiou.
Sabedores, enfim, do que padeciam interiormente, a comum desventura os
vinculou de algum modo. Como as relaes eram antes corteses que
familiares, nenhum deles falou com a efuso que lhes pedia o sentimento;
adivinharam-se, o que era muito, e apiedavam-se um do outro, o que era
quase tudo.
XIX
A porta do cu
Dois dias antes do casamento, Lvia foi jantar  casa do coronel, a
convite deste que reunira algumas pessoas de amizade. Flix no
compareceu, apesar de instantemente chamado; cedera a um sentimento de
delicadeza, no querendo mortificar com a sua presena a filha do
coronel, nem perturbar de algum modo o esprito da viva.
A primeira idia de Lvia foi no aceder ao convite, a fim de no
afrontar a dor de Raquel. Instaram tanto os pais da moa que lhe foi
impossvel recusar.
As duas moas encararam-se comovidas; a diferena era que Raquel podia
ocultar melhor o seu abalo do que a viva. Essa vitria da donzela sobre
si mesma fez redobrar a admirao da rival. Entendeu-lhe a delicada
inteno, e agradeceu-lhe na primeira ocasio que se lhe deparou.
 Sei tudo, acrescentou Lvia; sei da tua carta, que foi a chave com que
de novo se abriram as portas da fortuna. Eu no sei se poderia ser to
herica como tu. Separa-nos o destino; deixa-me beijar-te as mos.
O gesto acompanhou estas palavras: Raquel recusou ceder ao desejo da viva.
 Seja feliz! murmurou ela.
Tais foram as ltimas palavras que houve entre ambas. Quando a viva
saiu trocaram um beijo, a que no se podiam recusar, e que da parte de
Raquel foi muito menos espontneo que da outra. Lvia o sentiu e
sinceramente lho perdoou.
Ao entrar no carro, com o irmo, a viva ia desconsolada e triste. Seu
corao sabia amar, e a idia de que a sua felicidade custaria lgrimas
a algum fundamente lhe doa.
 Por que razo, pensava ela, me h de lanar a Providncia esta gota
amarga na taa das minhas delcias? Se eu ao menos o ignorasse... a
minha felicidade no seria travada de remorsos... Felicidade? continuou
ela dirigindo o pensamento a uma nova ordem de idias; ser deveras
felicidade? O sonho, tantas vezes dissipado, realizar-se- enfim?... H
quase um ano que eu pus toda a minha existncia nesta vaga
probabilidade; est prximo o termo, no sei que sorte avessa me repele
para longe. No a mereo talvez, ou ento ambiciono demais... Chamam-me
bela; devia talvez contentar-me com ser admirada...
Neste ponto foi a moa interrompida por uma observao banal do irmo,
que tinha um termmetro infalvel nos ps e anunciou que havia trovoada
iminente. A irm olhou silenciosamente para ele, e admirou consigo mesma
a ventura daqueles para quem as tempestades do ar importam mais que as
tempestades da vida. Viana faria provavelmente a reflexo inversa se
adivinhasse as preocupaes da irm.
Quando chegaram s Laranjeiras acharam Flix na sala, conversando
infantilmente com o filho de Lvia que lhe pedia a explicao do
mecanismo do relgio. Flix aplicava todos os recursos da imaginao
para satisfazer a curiosidade do menino. Como ouvisse parar um carro, e
logo depois rumor de passos no jardim, o mdico disse ao menino que a
mame estava a, e aproveitou a ocasio para lhe anunciar que ia casar com ela.
Ao ouvir esta notcia, o menino subiu aos joelhos do mdico, e perguntou
alegremente se era verdade o que dizia.
 Sim,  verdade, repetiu Flix.
 O senhor casa com mame?
 Caso, j disse.
Neste momento assomou  porta a figura de Lvia. O menino desceu dos
joelhos de Flix e correu a abraar a me.
  verdade que mame casa com o doutor Flix? disse ele depois de
receber um beijo da viva.
 , meu filho, respondeu esta entrando e estendendo a mo ao mdico.
A presena de Flix e a alegria de Lus mudaram o curso s reflexes da
moa. Cinco minutos bastaram para fazer esquecer a tristeza prpria e o
infortnio da rival abatida. Raquel verteria naquela ocasio, no
silncio da sua alcova, uma lgrima de saudade? Nenhum deles pensou
nisso, nem a viva a quem ela to generosamente servira, nem Flix que
era o objeto daquelas dores solitrias.
Flix estava mais jovial que nunca. Perdera de todo as maneiras
friamente polidas; tornara-se expansivo, grrulo, terno, quase infantil.
O corao parecia-lhe cheio do presente e do futuro. No era s a
situao que explicava esta mudana; era tambm a volubilidade do esprito.
A viva lia-lhe na alma, que, enfim, ressurgira, um poema de inefveis
venturas. Houve um momento em que lhe lembraram as mesmas alegrias da
vspera do seu primeiro casamento, e estremeceu; mas a impresso durou
pouco; o segundo marido no era, como o primeiro, uma criatura sem alma,
era, sim, uma alma sem ao. Mas o amor no comeava j a reanim-la?
Mais quarenta e oito horas, e eles uniriam para sempre os seus destinos.
Esse ato decisivo e grave da vida do homem, j o mdico o encarava com a
tranqilidade de nimo resoluto, sem tropear na responsabilidade, nem
arrecear-se das conseqncias. Antolhava-se-lhe o lar domstico como a
cidade da paz e da concrdia. No via s portas dela o lvido espectro
da dvida; flores e folhas verdes, no mortferas, seno vivificantes,
pareciam alcatifar-lhe o caminho e convid-lo a descansar enfim da vida
que to mal vivera.
Lvia saboreava esse renascimento do amante. Estavam ss e iam dar o
penltimo beijo de despedida. O ltimo seria o da noite seguinte. As
mos dela pousavam nos ombros de Flix, e os olhos de ambos procuravam
fundir as duas almas no mesmo raio de luz.
O cu no dava razo aos receios de Viana; tinham-se dissipado as nuvens
que anunciavam prxima borrasca. No havia luar, mas a noite estava
clara; e as vivssimas estrelas que luziam no cu, algum poeta imaginoso
as compararia a lnguas de fogo daquele pentecostes de amor.
 Jura-me ainda uma vez que me amas! dizia ele.  doce  minha alma
ouvir-te essa confisso!
 Pelo cu, por meu filho, por ti, juro que te amarei sempre! Amava-te
ainda quando eras indiferente ao meu afeto, quando o negavas, quando me
pagavas com o desdm. Por que no amaria agora que s todo meu... todo,
no?
 Duvidas?
 Eu no sei duvidar; recear, sim. J te disse por que razo. Mas hoje
no receio, no; sinto que sou verdadeiramente amada. Quaisquer que
fossem as minhas queixas, eu tudo te perdoaria agora, que me abres a
porta do cu.
 Oh! tu s um anjo!
 Adeus!
 Adeus! Amas-me muito, no?
 Muito!
E um beijo casto, longo, quase divino, selou esta confisso tantas vezes
repetida entre eles. Depois apertaram as mos, e Flix saiu.
A rua estava deserta, o silncio era profundo. Flix entrou em casa
exaltado e alegre. No tinha sono; recorreu aos livros, mas no lhe
aproveitou o recurso, porque se os olhos corriam no papel, o esprito
estava ausente, no tempo e no espao; buscava a amada e planeava futuros.
Com a fadiga veio o sono. Flix adormeceu nos braos dos anjos.
Batiam oito horas quando ele acordou e abriu as janelas. O dia estava
triste. Caa uma chuva fina e constante, que havia comeado pouco antes
dos primeiros albores da manh. Que lhe importava a ele a melancolia da
natureza, se tinha dentro dalma uma fonte de inefveis alegrias?
Assentou-se  escrivaninha, e durante duas horas fez o inventrio da sua
vida de solteiro, rasgando com indiferena uma imensidade de cartas que
lhe lembravam afeies extintas ou simples relaes passageiras. Varria
o templo em que devia entrar a escolhida de seu corao. Quando relia
algumas dessas epstolas,  folhas cadas da estao que se fora, 
desenhava-se-lhe nos lbios um sorriso irnico, mas tranqilo, tal era a
transformao de sua alma j indiferente s lutas do passado.
s dez horas levantou-se para almoar. Acabava de sentar-se  mesa
quando lhe vieram dizer que uma pessoa o procurava.
Era o Dr. Lus Batista.
XX
Uma voz misteriosa
Flix estacou  porta da sala. Lus Batista deu dois passos para ele.
 Nunca me ofereceu a sua casa, disse, e a minha indiscrio vem reparar
o seu esquecimento.
Era um gracejo ou um remoque? Flix limitou-se a apertar a mo que o
outro lhe estendia e convidou-o a sentar-se.
 Disseram-me que estava almoando, observou Batista; no quero de
nenhum modo interromp-lo. V, e eu ficarei aqui folheando algum livro.
 Ia comear a almoar, respondeu o mdico; se quiser almoaremos juntos.
 No; se me consente, visto que ainda est solteiro, irei familiarmente
assistir ao seu almoo, e ento lhe exporei o motivo que aqui me traz.
Flix convidou-o a entrar e ambos se sentaram  mesa. As primeiras
frases trocadas foram acanhadas e frias, mas as maneiras livres do
hspede conseguiram abalar a reserva do dono da casa.
  verdade, disse Batista, ouvi dizer que ia casar...
 Amanh.
 Assisto portanto ao seu penltimo almoo de rapaz solteiro. H muita
gente que ainda no acredita. Creio que o senhor tinha fama de
celibatrio convencido, e pela regra, um celibatrio convencido  um
noivo  mo. Tambm eu era assim; e contudo... O casamento  bom; tem
seus inconvenientes, como tudo neste mundo; mas  bom, com a condio
nica de o aceitarmos como ele deve ser...
 Um pouco livre? disse Flix sorrindo.
 No sei se pouco ou muito,  questo de temperamento. O essencial 
que seja livre. Eu assim o entendo e pratico; sou um pecador miservel,
confesso, mas tenho ao menos o mrito de no ser hipcrita, e agora mesmo...
 Agora mesmo? repetiu Flix depois de alguns instantes de silncio.
 No sei se deva contar-lhe isto; o senhor  ainda nefito, vai
naturalmente aborrecer-se e amaldioar-me... Mas, em suma, 
indispensvel que eu lhe diga tudo, porque isso prende com o motivo que
me traz  sua casa.
Batista aceitou uma xcara de caf que o mdico lhe ofereceu. Depois,
com um modo acintemente leviano, referiu ao dono da casa uma aventura
amorosa daqueles ltimos dias. Tratava-se de uma mulher caprichosa e
requestada. Seu triunfo era portanto duas vezes glorioso. Como beleza,
desafiava ao prprio mdico a resistir-lhe depois de meia hora de
contemplao. Achar-se-iam, talvez, outras mulheres mais formosas;
nenhuma, porm, tinha como essa o misterioso encanto que sabe agrilhoar
a vontade mais rebelde.
 Quando ela me fita os seus grandes olhos, continuou pinturescamente
Lus Batista,  o mesmo que se me entornasse chumbo derretido nas veias.
Todo o estilo da sua descrio era assim,  galhofeiro e sensual. Falou
durante vinte minutos com o entusiasmo prprio da sua situao. Flix
ouvia pacientemente a narrao do hspede, sem atinar com a relao que
teria aquilo com o pedido que lhe ia fazer. Interiormente estava
aborrecido. No fora o mdico em sua longa vida de rapaz solteiro nem
casto nem cauto; mas a atmosfera do noivado comeava a arejar-lhe o
esprito, e semelhante confidncia, naquela ocasio, lhe parecia de todo
ponto extravagante.
 No desconheo, disse Lus Batista quando concluiu a sua expanso
amorosa no desconheo que uma aventura destas, em vsperas de noivado,
produz igual efeito ao de uma ria de Offenbach no meio de uma melodia
de Weber. Mas, meu caro amigo,  lei da natureza humana que cada um
trate do que lhe d mais gosto. A vida  uma pera bufa com intervalos
de msica sria. O senhor est num intervalo; delicie-se com o seu Weber
at que se levante o pano para recomear o seu Offenbach. Estou certo de
que vir cancanear comigo, e afirmo-lhe que achar bom parceiro.
Dizendo isto, Lus Batista engoliu o resto, j frio, do caf que tinha
na xcara, acendeu de novo o charuto, e recostou-se na cadeira. Flix
teve tempo de reassumir a atitude tranqila que as ltimas palavras de
Batista lhe haviam alterado.
 Enfim, disse ele, que ligao h entre essa aventura e o pedido que me
vai fazer?
 Toda, respondeu Batista; se ela no existisse, eu no viria pedir-lhe
nenhum favor. O senhor sabe o que  um capricho de mulher amante; no
ignora tambm que o menor desejo dela  uma ordem para o cavalheiro seu
escolhido.
Flix fez um gesto afirmativo.
 Pois bem, continuou Batista. Estamos nesse caso. Ela  extremamente
caprichosa, e mais ainda que caprichosa,  amante de coisas darte. H
dias fui ach-la aborrecida. Interroguei; nada me quis dizer. Pela
conversa adiante falou-me duas ou trs vezes numa gravura que vira na
rua do Ouvidor, e que o dono vendera quando ela l voltou, disposta a
compr-la. O assunto era o mais ortodoxo possvel: a israelita Betsab
no banho e o rei Davi a espreit-la do seu eirado. No lhe parece
galante? A gravura creio que era finssima; mas tinha, alm disso, um
merecimento para a pessoa de quem lhe falo:  que a figura de Betsab
era a cpia exata das suas feies. Vaidade de moa bonita. Mostrava-se
to desconsolada quando falava naquilo que facilmente percebi no ser
outro o motivo do aborrecimento em que a fui encontrar.
 E ento?
 Fiz o que faria qualquer outro. Era necessrio que a todo o trance ela
possusse um exemplar da gravura. Fui procur-lo, e no achei. Gastei
dois longos dias nessas pesquisas, e quando voltei  casa dela no tive
remdio seno tirar-lhe a ltima esperana. Ela apertou-me afetuosamente
as mos, e agradeceu-me o trabalho, dizendo-me que era mais uma prova de
amor que lhe dava; concluiu, porm, tudo isso com um suspiro. Eu no me
atrevo a dizer ao senhor o que quer dizer um suspiro neste caso; aquele
suspiro era uma insistncia do desejo.
 Parece que sim, disse Flix que j adivinhara o final da exposio.
 Dir-me- o senhor, continuou Batista, que eu devia aproveitar o
paquete que partiu ontem e mandar vir da Europa a gravura. No duvidaria
faz-lo, e ela esperaria de boa vontade; mas quem pode afirmar que o meu
amor dure at  volta do paquete? Tive ento uma idia salvadora.
 Ah!
 Voltei  loja onde ela vira a gravura e inquiri do dono da casa quem
lha havia comprado. Depois de algum trabalho de memria disse-me que
fora o senhor. A princpio hesitei se devia importun-lo. O pedido no
seria indiscreto em qualquer outra ocasio; mas, quando o senhor est
para tomar um estado moral, rogar-lhe que me ajude a enxugar as lgrimas
de uma bela pecadora,  mais que indiscrio,  atrevimento. Hesitei, a
voz da razo era mais fraca que a do pecado, e venceu o pecado.
Lus Batista calou-se e ficou esperando a resposta do mdico. Houve um
largo silncio. Levantaram-se da mesa e foram para a sala, sem que Flix
desse a resposta. Lus Batista foi o primeiro que tornou ao assunto.
 No me pode fazer o que lhe peo? disse ele.
 Tenho estado a perguntar a mim mesmo se me  lcito faz-lo, respondeu
Flix sorrindo, e se ao entrar nas fileiras do matrimnio devo ajudar a
desero de um camarada.
Lus Batista estava naquele dia singularmente falador. A simples
observao do mdico deu azo a um largo discurso a respeito do regime
matrimonial. Era meio-dia; Flix estava j fatigado da visita e da
palestra. Aproveitou um interstcio para dizer:
 Em suma, tem grande desejo de possuir a gravura?
 Queria que ma cedesse.
 Fao-lhe presente dela.
 Eu no desejava de nenhum modo prejudic-lo, disse Batista; h de
consentir ento que eu lhe faa um presente de noivado.
Flix no respondeu; foi buscar a disputada gravura e trouxe-lha. Lus
Batista no pde reter um grito de surpresa. A figura de Betsab, dizia
ele, parecia realmente uma cpia da sua dama. A dama era talvez mais
formosa do que a cpia.
Foi nesse momento que trouxeram ao mdico uma carta, entregue pelo
correio. Flix abriu-a distraidamente, mas tanto que lhe leu o contedo
ficou muito plido e encostou-se a uma cadeira. Com a mo trmula
aproximou o papel dos olhos, enquanto os dentes mordiam os lbios at
deitar sangue. Lus Batista aproximou-se rapidamente de Flix e
perguntou-lhe o que tinha.
 Nada, disse o mdico, uma vertigem apenas... H de dar-me licena,
preciso estar s.
O hspede curvou-se, sorriu e saiu.
Flix encerrou-se no seu quarto. Do que l se passou ningum de casa
soube: algum rumor se ouvia de quando em quando, mas abafado, e uma ou
outra exclamao vaga e solta. Eram quatro horas quando o mdico saiu  sala.
O tempo tinha melhorado. O sol reaparecera entre duas nuvens, dando de
chapa nas rvores molhadas de chuva e nos telhados que escorriam um
resto de gua. Dissera-se que a natureza queria fazer outro contraste ao
inverso do da manh, porque, se a tarde sorria alegre, o homem dava
sinais de tempestade interior. Tinha os olhos vermelhos, a boca
contrada, os cabelos em desordem. Saiu com passo vacilante. De quando
em quando, colhia o alento com a expresso de quem lhe custa respirar.
Um escravo, a quem ele deu algumas ordens, reparou no estado do senhor,
e perguntou-lhe se estava doente. Flix respondeu secamente que no. O
escravo abanou a cabea e saiu.
Flix escreveu em seguida uma carta que sobrescritou para a viva.
Vestiu-se depois. No tardou que lhe parasse um carro  porta. Meteu-se
nele e mandou tocar para a cidade.
XXI
ltimo golpe
Era j sobretarde quando a carta chegou s mos da viva. Viana descera
 chcara, enquanto a irm dividia a ateno entre os gracejos do filho
e o seu prprio pensamento. O menino enchia toda a sala com a sua
pessoa; as travessuras dele no eram enfadonhas. Lvia no o contemplava
s com os olhos de me; via nele como que o elo de ouro entre uma
quimera desfeita e uma quimera realizada. Tais eram as suas reflexes
quando a mucama lhe veio trazer a carta de Flix. Entregou-lha e saiu.
Lvia estremeceu; a letra do sobrescrito revelava o estado febril da mo
que o escrevera. Abriu rapidamente a carta e leu-a.
Quando Lus, numa das suas voltas, se chegou  me, achou-a com os olhos
cravados no cho, trmula e plida. Chamou por ela, inutilmente.
Agarrou-lhe as mos e a moa pareceu acordar de um letargo.
 Que tem, mame? perguntou o menino, afagando-a com voz lacrimosa.
Lvia no respondera a princpio. A voz da criana chamou-a enfim 
realidade. Olhou vagamente  roda da sala, e como se a pouco e pouco lhe
voltasse a conscincia, dirigiu lentamente os olhos  carta fatal.
Tinha-a ainda entre as mos. Releu-a com ansiedade, levantou-se
arrebatadamente, deu alguns passos e de novo se deixou cair na cadeira.
O menino correu  porta assustado. O tio entrava nesse momento.
 Que ? disse Viana vendo o ar assustado do menino, e as feies
descompostas da irm.
Lvia entregou-lhe a carta.
A carta dizia assim:
Lvia
O que vou fazer  indigno, bem o sei; mas  ainda mais cruel do que
indigno. O nosso casamento  fatalmente impossvel. No tens nenhuma
culpa direta nem indireta na minha resoluo. Esta carta, que me
condena, ser a tua cabal defesa. Adeus.
Flix.
Quando Viana acabou de ler este estranho e misterioso documento, ficou
to plido como a irm. No compreendia nada do que se passava;
indignava-o, todavia, o procedimento de Flix. Sufocou a clera a ver se
evitava a exploso da viva. Olharam-se ambos silenciosamente alguns
instantes; o menino tinha-se aproximado e segurava uma das mos da me,
olhando para o tio como se esperasse dele alguma explicao.
 Recusa, disse enfim Viana, e nenhuma explicao nos d do seu
procedimento. O ato  to indigno que no te deve mortificar; quando um
homem d este triste documento da sua lealdade, penso que a mulher que o
ama pode dar graas a Deus de o no ter acompanhado at o altar. Espero
que penses como eu...
Viana no pde acabar. As lgrimas, tanto tempo sustidas, romperam enfim
dos olhos da viva, impetuosas e amargas. A dor, de to concentrada que
fora a princpio, fez-se violenta e explosiva; mas o organismo estava
to abalado por tantas comoes, que a infeliz moa perdeu os sentidos.
Quando ela voltou a si era noite; achou-se no seu prprio leito, tendo
ao p de si o irmo e um mdico.
O mdico falou-lhe e ela respondeu sem saber o que dizia nem o que
ouvia. A febre era intensa, mas o mdico esperava que no dia seguinte
cedesse  energia do remdio que lhe ia aplicar.
Viana ficou s com a irm, e procurou distra-la do sucesso da tarde,
tarefa intil porque a viva no pensava nele; o olhar vago indicava que
ainda se no havia feito luz no seu esprito. s vezes contraa os
sobrolhos e fitava o olhar no espao como se estivesse a recordar-se.
Numa dessas vezes volveu os olhos pelo quarto parecendo procurar algum.
A ausncia de Flix de todo lhe alumiou o esprito.
Deu um grito abafado e desatou a chorar.
Acorreu o irmo, com palavras de brandura e conselho, dizendo-lhe que
nem tudo estava perdido, e que era possvel remediar o mal. Lvia no
prestava f a essas vs consolaes; estava entregue ao seu desespero.
Abafada com soluos, lavada em lgrimas, soltava gritos de angstia, e
convulsivamente se revolvia no leito.
Viana teve medo desse grave estado e mandou chamar o mdico. Quando este
chegou, j a doente havia sossegado; mas, com as lgrimas, tinha-se ido
a razo. O delrio durou toda a noite e parte da manh seguinte. De
tarde a febre declinou um pouco e a doente adormeceu.
S no dia seguinte, quando o abatimento veio substituir a exaltao,
pde a moa refletir no recente infortnio. Debalde perguntava a si
mesma a causa daquele sbito rompimento do noivo; nada lho explicava.
Algum mistrio haveria, alguma razo aparentemente legtima, porque 
viva nada lhe dizia o corao que fosse contrrio  lealdade de Flix.
Contou-lhe o irmo que havia ido  casa do mdico, e no o encontrara,
nem l lhe quiseram dizer para onde fora. Agora, depois de maduro exame,
pensava em ir pedir-lhe uma explicao do procedimento.
Lvia desaprovou-lhe a resoluo.
 Mas, disse Viana, no podemos ficar assim...
 Podemos, interrompeu a viva; enquanto estou doente a explicao ser
natural para os outros. Quando me levantar da cama direi que eu mesma
desfiz o casamento. Achaste-me sempre singular;  provvel que os outros
me vejam com iguais olhos; e tudo se explicar da melhor maneira.
 Mas a explicao dele...
 A explicao dele no  precisa.
Raquel, apenas soube da doena de Lvia, foi passar alguns dias com ela.
Naquelas circunstncias o encontro de ambas foi profundamente triste. A
viva no lhe confiou logo a causa verdadeira da sua enfermidade, mas
durou pouco a reserva, porque a ausncia de Flix fez impresso na moa,
e Lvia julgou melhor dizer-lhe tudo. Era a segunda vez que ambas
achavam no seio uma da outra, no a consolao mas o adormecimento
momentneo do corao.
Lvia entrou a convalescer do abalo que lhe dera a fatal carta. Raquel
tornara-se enfermeira dedicada e continuou a ser o que sempre fora,
amiga afetuosa. A viva no acreditava na realidade do seu
restabelecimento. Em sua opinio, era uma aparncia que a realidade
desfaria em pouco tempo.
Dez dias depois do rompimento de Flix, apareceu Meneses nas
Laranjeiras. Tinha ouvido algumas perguntas relativas ao casamento do
mdico, que sabia no se ter efetuado, sem que at ento transpirasse a
causa verdadeira. Soube, porm, da molstia de Lvia, e a isso atribuiu
a demora do casamento.
A moa abafou um suspiro quando o viu entrar. No era arrependimento;
era talvez lgrima de si prpria, que no pudera aceitar esse corao
mais confiante e menos escabroso que o do outro.
Mas se era j impossvel uma aliana que a natureza no aconselhara,
ainda que o pedira a razo, vinha de molde o amigo a quem confiaria os
seus infortnios. Esse foi o primeiro impulso; o segundo foi, no de
orgulho, mas de pudor. O corao teve pejo de ir confessar o seu erro
diante daquele mesmo a quem repelira um dia.
Era difcil que semelhante situao se escondesse aos olhos de Meneses.
A ausncia do noivo era inexplicvel; Meneses suspeitou a verdade e
Raquel lha confirmou. O fim com que a donzela delatou o segredo confiado
foi ainda um sacrifcio; pediu a interveno de Meneses para a
reconciliao do mdico com a viva.
 Peo-lhe uma coisa difcil, concluiu ela aludindo pela primeira vez ao
amor de Meneses, mas  uma boa ao.
  uma boa ao, e no  difcil, replicou Meneses olhando fixamente
para ela.
Raquel abaixou severamente os olhos. Um espectador atento concluiria,
talvez, que a ferida dele no estava longe de cicatrizar, mas que, pelo
contrrio, a dela continuava a deitar sangue.
Meneses disps-se a tentar alguma coisa. Reconhecia que o procedimento
de Flix era misterioso; mas no desesperou de lhe descobrir a causa e
confiava em que poderia remov-la. Conseguiu saber que o mdico se
refugiara na Tijuca. Quando estava pronto a ir ter com ele, hesitou,
refletiu e recuou da primeira resoluo.
Foi preciso que uma nova crise o empuxasse para l. A viva recara
enferma, no tendo podido resistir s longas viglias e mal dormidas
noites. A molstia desta vez trouxe um carter menos violento que da
primeira vez, mas pertinaz; a febre no era intensa, era constante. O
mdico assistente no achou que houvesse perigo; recomendou o mais
desvelado tratamento, e repouso absoluto de esprito.
Meneses no hesitou; partiu para a Tijuca.
XXII
A carta
Quando Meneses chegou  Tijuca eram quatro horas da tarde. A casa de
Flix ficava afastada do caminho. O porto estava aberto; Meneses
atravessou rapidamente o espao que ia da estrada  casa e bateu. Veio
um moleque abrir-lhe a porta. Meneses entrou precipitadamente e
perguntou:
 Onde est o senhor?
 Senhor no fala a ningum, respondeu o moleque com a mo na chave como
se o convidasse a sair.
 H de falar comigo, insistiu resolutamente Meneses.
O tom decidido do rapaz abalou o escravo, cujo esprito, costumado 
obedincia, no sabia quase distingui-la do dever. Seguiram ambos por um
corredor, chegaram diante de outra porta, e a o moleque, antes de a
abrir, recomendou a Meneses que esperasse fora. Perdida recomendao,
porque, apenas o moleque abriu a porta, Meneses entrou afoitamente atrs
dele.
Era um gabinete pequeno com quatro janelas que o enchiam de luz. Perto
de uma janela uma rede estendida. Sobre a rede via-se um homem
negligentemente deitado com um livro nas mos.
Era Flix.
Flix levantou a cabea, deu com os olhos em Meneses e empalideceu.
Meneses no dera um passo mais. Ficaram assim alguns segundos a olhar um
para o outro. Enfim, o mdico disse ao escravo que se retirasse, e os
dois ficaram ss.
O silncio prolongou-se ainda mais. Da parte de Flix era confuso; da
parte de Meneses desapontamento. Viera ele em todo o caminho a descrever
na imaginao o estado de Flix, acabrunhado por alguma grande dor, e em
vez disso achava-o a ler pacificamente um livro. Quis lanar mo do
livro, para conhecer bem at que ponto a sua desiluso era completa; mas
o mdico rapidamente o afastou.
 No atendeste  ordem geral que eu havia dado, disse enfim o dono da
casa, e creio que s alguma razo poderosa te obrigaria a isso.
 Assim era, retorquiu Meneses, mas a razo acabou e eu volto para a
cidade.
Dizendo isto, ps o chapu na cabea e dirigiu-se para a porta. Parou um
instante, caminhou de novo at a rede e proferiu secamente estas
palavras:
 Tens conscincia do que fizeste?
 Tenho, respondeu Flix; fiz o que me cumpria fazer. Mas, antes de mais
nada, vens aqui por inspirao tua ou por mandado de...
 Venho porque era um dever da minha parte livrar-te da vergonha, e a
ela da morte.
 Da morte! exclamou Flix levantando-se de um pulo.
O terror que se lhe pintara no rosto fez boa impresso no amigo.
Suspeitou este que nem tudo estivesse perdido. Sentaram-se ambos, e
Meneses referiu ao mdico os acontecimentos que deixo narrados no
captulo anterior. Flix escutou a narrao do amigo com um interesse
que no podia vir seno do amor. Meneses concluiu pintando-lhe com as
cores que o caso pedia a baixeza do seu procedimento, o desaire que
recaa sobre a viva, e o remorso que o havia de acompanhar a ele, ainda
quando daquele triste episdio no sasse nenhuma fatal conseqncia.
Flix mostrou-se profundamente comovido com a narrao de Meneses e as
reflexes que lhe fizera.
 Tens razo, disse ele quando o amigo acabou de falar; procedi
covardemente. Ela ainda me ama... E perdoa-me, no ? Sim, h de
perdoar-me... Pobre Lvia! Se tu soubesses como ela tem sofrido por
minha causa!...
Meneses, satisfeito, disse-lhe que era indispensvel voltar  cidade.
Enquanto falava, porm, o rosto de Flix mudou de expresso. A nica
resposta do mdico foi:
 No! o que est feito, est feito; agora  impossvel recuar.
 Impossvel! gritou Meneses.
 Impossvel, repetiu placidamente Flix.
Meneses levantou-se impaciente e comeou a passear. A serenidade do
mdico mais lhe doa do que indignava, porque alguma razo poderosa
devia ele ter para cortar to peremptoriamente toda a tentativa de
reconciliao. Quisera sab-la e tremia de o interrogar.
O mdico, entretanto, deixara-se estar sentado, quase to tranqilo como
na ocasio em que Meneses lhe entrara no gabinete.
No era fingida essa tranqilidade, que durava j de alguns dias, depois
de outros,  os primeiros,  que foram de aflitiva tempestade.
O homem no se esconde de si mesmo, e o maior infortnio dos coraes
pusilnimes  sentirem que o so. Quando Flix chegou  Tijuca tinha
passado a excitao do primeiro momento; o esprito, fraco de si, e
abatido pela imensidade do abalo, no achou na solido o alvio que lhe
pedira. Vieram ento muitos dias de luta e de febre, em que ele, para
fortalecer o nimo, lia e relia a misteriosa carta que trouxera consigo.
O remdio era antes veneno para a sua alma ulcerada; lembrava-lhe a
felicidade que perdera.
Era isto o que padecia o corao. A conscincia padecia tambm, porque a
sociedade, que ele no vira no primeiro instante, agora lhe aparecia
como um juiz inflexvel, a pedir-lhe contas de uma injria sem
explicao. s vezes arrependia-se do ato; outras vezes no se
arrependia, mas acusava-se de precipitado e louco. Nunca mais
tristemente se revelara a inconsistncia do esprito.
Com o tempo a conscincia foi calando as vozes, e com o tempo, a
distncia, e a sua ndole varivel, se lhe foi aquietando o corao.
Aquele homem, que alguns dias antes chorava de desespero, nenhum
vestgio guardara de suas lgrimas. No se lhe apagara o amor da viva,
mas no lugar da paixo veemente, como que ficara apenas uma recordao
remota e suave. Esta mudana era em parte obra de seu esforo, que
buscava no esquecimento um refgio; mas em grande parte era um efeito
natural dele.
Tal foi a situao em que o achou Meneses. A presena deste trouxe 
memria do mdico a ltima crise do corao. A impresso foi grande, no
longa; a face do lago, que uma rajada encrespara, voltou  serenidade primitiva.
Meneses passeava de um lado para outro, a observar de quando em quando o
mdico. Ao seu esprito repugnava a idia de que Flix recorresse a um
meio extraordinrio para sair de uma situao difcil, no sancionada
pelo corao. Uma causa havia, decerto, que se lhe afigurava grave, e
que ele a todo custo queria conhecer. Seus esforos convergiram para
esse ponto.
Instado pelo amigo, Flix aludiu  carta que recebera, mas recusou mostr-la.
 H nela um segredo, disse ele, que me impede de a comunicar a ningum.
Lvia tem jus ao meu respeito e possui ainda o meu amor.
Estas ltimas palavras foram ditas com certa comoo. Meneses no perdeu
a esperana de o vencer. A sinceridade era a sua eloqncia; podia-se
dizer que ele falava com o corao nas mos. O esprito de Flix ia
cedendo ao encanto; ele mesmo recordava as horas felizes do passado e as
saudosas esperanas do futuro. O corao palpitou-lhe com mais fora e a
imaginao fez o resto. A carta, porm, a fatal carta lhe ocupou logo o
pensamento, e a fronte descaiu diante do insupervel obstculo.
Cansado de lutar, Meneses resolveu partir para a cidade.
 No sei o que pensaro os outros, disse ele; eu levo a suspeita de que
no a amaste nunca, e que esse rompimento estrepitoso foi um meio de
salvar a tua liberdade.
Ouvindo estas palavras, Flix no pde conter um gesto de clera. A
atitude quieta de Meneses o fez cair em si.
 Tens razo, disse ele depois de algum tempo. Quero que pelo menos
algum me reconhea inocente e digno. Ds-me a tua palavra de honra que
nada revelars do que vais ler?
 Dou.
Flix foi buscar a carteira, tirou dela a carta, e entregou-a a Meneses.
Meneses leu o que se segue:
Msero moo! s amado como era o outro; sers humilhado como ele. No
fim de alguns meses ters um Cireneu para te ajudar a carregar a cruz,
como teve o outro, por cuja razo se foi desta para a melhor. Se ainda 
tempo, recua!
A carta no tinha assinatura.
Meneses ficou atnito; mas foi obra de alguns instantes, poucos. Sua
ndole generosa repelia a idia de acreditar na revelao que acabava de ler.
  impossvel! disse ele.
Flix ergueu a cabea, que apertava entre as mos, e replicou:
 Essa  a tua convico; eu quisera que fosse a minha. Mas que
testemunho tens tu contra o que a vs escrito?
 No sei, respondeu Meneses com calor, mas  o que me diz o corao.
Repugna-me crer que essa pobre senhora... No,  impossvel! Demais, uma
carta annima!
 Pe o nome que quiseres a embaixo no lhe aumentas nem lhe tiras o
valor, se a revelao  verdadeira.
 Quem te diz que  verdadeira?
 Quem me diz que o no ? A dvida era j bastante para justificar o
que fiz. No foi s o receio do futuro que me impeliu, foi
principalmente a lembrana do passado. A traio dela, se a houve, no
deve doer nada ao marido que se foi; mas ao marido que vem, a idia da
perfdia anterior, destri pela base toda a confiana, que  a condio
de felicidade. No sei o que farias tu no meu caso; eu segui o impulso
do corao e da razo.
Meneses ouvira atentamente o amigo. Quando ele acabou:
 Creio-te sincero, disse; e compreendo que sofreste.
 Muito!
 Mas recusars uma reflexo? Quem escreveria esta carta? No foi um
amigo, decerto. Um amigo, se lhe pesasse o teu ato, viria falar-te cara
a cara. Um indiferente tambm no foi. Resta, pois, um inimigo, teu ou dela...
 Dela?
 Ou um interessado: escolhe.
Flix refletiu um instante.
 Inimigo, no sei se os tinha; interessado... em qu?
 Ela  rica; algum pretendente...
 No havia nenhum.
Meneses no fraqueou na defesa de sua hiptese. Quanto mais atentava na
revelao da carta, mais o corao lhe bradava contra ela. Para ele a
inocncia de Lvia era clara como o sol. Flix sentia-lhe a convico, e
lastimava-se de a no ter, to viva e to profunda.
A noite cara de todo. Meneses declarou que s voltaria  cidade no dia seguinte.
Flix compreendeu que o amigo no perdera a esperana de o converter, e
longe de se irritar agradeceu-lhe a inteno. Era a primeira vez que ele
se expandia com algum a respeito do seu amor; f-lo com abundncia e
sinceridade. No lhe lembrara sequer que Meneses tambm amara a viva.
Muitas vezes falaram na carta. Meneses perguntou ao mdico em que
circunstncias a recebera. Flix referiu a visita de Lus Batista, o
objeto dela, a conversa travada entre ambos, at que a carta lhe chegou s mos.
A singularidade da visita de Lus Batista no escapou a Meneses.
 Visitava-te esse homem? perguntou ele.
 Nunca.
 Eras amigo dele?
 Havia mais razes para sermos inimigos que outra coisa.
Meneses hesitou; no se atrevia a desposar uma suspeita. Mas o esprito
do mdico era terreno fecundo para ela. Apenas as perguntas de Meneses
lhe deitaram o germe, para logo foi lanando razes e cresceu.
 Crs ento que ele?... aventurou o mdico.
 No sei; mas, no te parece curiosa toda essa histria de gravuras?
Flix refletiu algum tempo. Como quando os olhos se vo acostumando 
meia luz de um stio, e comeam a distinguir a pouco e pouco os objetos,
o esprito do mdico entrou a recordar e a examinar todos os incidentes
daquela fatal manh. O que ele a princpio no vira, apareceu-lhe ento
claro e evidente. O tom ameno e jovial de Lus Batista, a sua estranha
verbosidade, o episdio dos amores to levemente contados a um homem que
no era seu natural confidente, tudo isto com a circunstncia da
humilhao que recebera quando a viva lhe fechou a sua sala, enfim a m
reputao dele, eram indcios de sobejo para no achar natural a visita
que lhe fizera. Mas, como deduzir daqui a autoria da carta?
Meneses resolveu a dvida naturalmente.
 Se no desses crdito  carta, disse ele, o ltimo de quem te
lembrarias seria Lus Batista, porque ningum faz mal a um homem no
mesmo instante em que lhe vai pedir um favor.
Flix aceitou esta explicao; mas o que acabou de o convencer foi uma
circunstncia at ento deslembrada e agora decisiva. O mdico
levantou-se rapidamente da cadeira; deu alguns passos na sala e parou em
frente de Meneses.
  verdade, disse; foi ele com certeza! Quando eu li a carta fiquei
fulminado. Ele aproximou-se de mim; eu pedi-lhe que me deixasse s.
Obedeceu, mas um sorriso, que ento me pareceu feroz indiferena, mas
que hoje vejo que era de triunfo, lhe roou os lbios. Foi ele; oh!
sinto que foi ele!
Entendamo-nos, leitor; eu, que te estou contando esta histria, posso
afirmar-te que a carta era efetivamente de Lus Batista. A convico,
porm, do mdico  sincera, decerto,  era menos slida e pausada do que
convinha. A alma dele deixa-se ir ao sabor de uma desconfiana nova, que
as circunstncias favoreciam e justificavam.
Quando Meneses viu que o maior trabalho estava feito, no teve mais que
falar outra vez de Lvia. A placidez do mdico desaparecera; todo ele
era agora amor e dio, arrependimento e vingana. A noite foi mal
dormida, e quando a aurora os convidou a sair do leito, Flix era
totalmente outro. Ardia por ir fazer aos ps da viva plena confisso da
sua indignidade. Era o nome que lhe dava; dar-lhe-ia outro, se os
acontecimentos o fizessem duvidar outra vez.
Apressaram a viagem; Meneses estava alegre com o resultado da misso;
lamentou com o mdico a fatalidade do caso, mas estava certo de que tudo
ia acabar como devia. Mil idias cor-de-rosa enchiam o crebro de Flix,
e ambos desceram rapidamente na direo da cidade.
XXIII
Adeus
Apenas chegaram  cidade, Flix despediu-se de Meneses e seguiu para as
Laranjeiras. Ia palpitante e receoso; pela primeira vez nesse dia lhe
lembrou a doena da viva. Temeu que fosse tarde. No era; as janelas
estavam abertas. Entrou no jardim; subiu as escadas cabisbaixo; quando
levantou os olhos viu Raquel diante de si.
Raquel, cujo corao era menos filosfico, posto soubesse resignar-se
como o de Meneses, no viu o mdico sem algum abalo interior. F-lo
entrar e foi ter com a enferma.
Quando Lvia soube que Flix ali estava, sorriu tristemente e fechou os
olhos. Abriu-os para contemplar a boa amiga que esperava ao p do leito.
No estavam molhados. Cobria-os um vu de serena melancolia.
 Agradece-lhe por mim, Raquel, e dize-lhe que me ver quando eu puder
sair daqui.
Flix recebeu o recado e sentiu a frieza dele, apesar da doura da voz
que lho transmitira. Era muito contudo; no estaria longe a
reconciliao.
A convalescena de Lvia foi mais rpida do que se devera esperar. O
intervalo foi aproveitado por Flix em se reconciliar com Viana, que
achou dentro de si bastante misericrdia para perdoar o culpado. A
submisso do mdico o lisonjeou, e o seu arrependimento lhe pareceu o
que realmente era,  sincero. Era natural perguntar-lhe a razo do
rompimento. Viana achou melhor calar-se; o que ele queria antes de tudo
era a reparao do erro.
Lvia consentiu finalmente em receber o mdico. Estava na sala,
envolvida num roupo branco, com um resto de palidez que a enfermidade
lhe deixara no rosto. Nas circunstncias em que ambos se tornavam a ver
no podia ela estar melhor. O ar da moa no era risonho, mas tambm no
era severo. Flix caminhou lentamente para ela, tmido e fascinado ao
mesmo tempo. De novo sentia o imprio que a viva sempre exercera em seu
esprito.
Quando Flix confessou  viva todo o seu arrependimento e lhe implorou
o perdo da culpa, que cometera, escutou-o Lvia com grande serenidade,
e afetuosa lhe respondeu:
 No lhe nego o perdo que me pede; seria duvidar do seu
arrependimento, e eu creio que  sincero. Podia talvez exigir que me
dissesse a causa que o levou...
 A causa  triste de confessar, interrompeu Flix.
 No lha peo. Mas quer ouvir o resto?
Flix curvou a cabea.
 Creio no seu arrependimento, e no duvido do seu amor, apesar de tudo
o que se h passado. Isto lhe deve bastar. O destino ou a natureza no
nos fez um para o outro. O casamento entre ns seria uma cerimnia
apenas. Seria mais; seria o nosso infortnio, e mais vale sonhar com a
felicidade que poderamos ter do que chorar aquela que houvssemos
perdido.
Flix ouviu as palavras da moa cabisbaixo e abatido. No ousava
responder-lhe, nem interrog-la; mas do seu mesmo silncio colhia a moa
a sinceridade da dor e do arrependimento.
 Se isto lhe di, continuou ela, v bem que a culpa no  minha. Eu
aceito uma situao no criada por mim, nem tambm pelo senhor, mas, 
como eu lhe dizia,  pela natureza ou pelo destino. No ponto a que
chegamos  esta a resoluo melhor.
 No , interrompeu Flix com impetuosidade, no  a melhor porque
ambos perderemos com ela, e nada nos impede a resoluo contrria. Creio
que no duvide do meu amor; mas digo-lhe que o no compreende, nem
avalia. Eu no teria nimo de lhe propor nas circunstncias em que nos
achamos, um rompimento que...
O sorriso com que a moa o ouvia cortou-lhe a palavra neste ponto. Caiu
em si, lembrou-lhe,  que ele facilmente esquecia tudo,  lembrou-lhe
que lhe no cabia falar de rompimento, e murmurou:
 No tenho direito de falar assim, e vejo que mereo um castigo...
 No  castigo, atalhou a viva,  necessidade. Se alguma consolao
pode levar desta ltima entrevista, leve e certeza de que o amo como
dantes, e de que o meu padecimento ser ainda maior do que o seu. O
casamento  j agora impossvel. Eu no sei o que motivou a sua carta,
mas imagino que foi alguma dvida nova a meu respeito. Se nos
casssemos, cessariam elas?
 Sim! porque eu hoje creio e vejo o que padeceu por mim. Para duvidar
do seu amor seria preciso que houvesse perdido a razo. Demais,
continuou Flix enquanto Lvia abanava tristemente a cabea,  viveremos
s para ns, fecharemos a nossa casa aos olhos estranhos...
 Ainda assim o ir perseguir esse mau gnio, Flix; seu esprito
engendrar nuvens para que o cu no seja limpo de todo. As dvidas o
acompanharo onde quer que nos achemos, porque elas moram eternamente no
seu corao. Acredite o que lhe digo; amemo-nos de longe; sejamos um
para o outro como um trao luminoso do passado, que atravesse indelvel
o tempo, e nos doure e aquea os nevoeiros da velhice.
Lvia proferiu estas ltimas palavras com a voz trmula, e uma lgrima
lhe rolou pela face plida.
 Por que nos separaremos agora que estamos  porta do cu? perguntou
Flix. No me cabe o direito de exigir uma felicidade que repeli tantas
vezes; mas, se pudesse entrar na minha alma veria que os meus erros, por
maiores que sejam, e so grandes, anima-os sempre um sentimento de amor,
e que enfim eu cedo sempre ao grito de minha conscincia. A mais bela
ao seria perdoar-me esquecendo, e o nico modo de esquecer seria
voltarmos ao tempo de nossas esperanas.
 Perdoei tudo, e tudo esqueci; apagou-se o passado e nenhum
ressentimento me ficou. O que se no apaga  o futuro.
Flix torcia as mos. Era patente o seu desespero. A viva mal podia
encar-lo. Seguiu-se um longo silncio, interrompido pela chegada de
Lus. O menino ps termo  entrevista. Flix olhou ainda algum tempo
para a moa; mas leu-lhe na fisionomia que a resoluo era inabalvel.
Levantou-se para sair.
 Conservaremos a estima recproca, disse Lvia estendendo-lhe a mo, e
espero que me conserve tambm alguma coisa mais... como eu.
Eram as ltimas palavras da moa, vieram entrecortadas de soluos. Flix
quis pegar-lhe nas mos e aproveitar esse passageiro desmaio para
conseguir a retratao das palavras. Mas a moa abraou-se ao filho em
cujo seio escondeu o rosto.
 No faa chorar mame, disse Lus enlaando com os bracinhos o pescoo
da viva.
Flix retirou-se lentamente, com os olhos anuviados, turvo o esprito, o
passo vacilante, e transps a custo a soleira daquela porta que se lhe
ia fechar para sempre.
XXIV
Hoje
Dez anos volveram sobre os acontecimentos deste livro, longos e
enfastiados para uns, ligeiros e felizes para outros, que  a lei
uniforme desta mofina sociedade humana.
Ligeiros e felizes foram eles para Raquel e Meneses, que eu tenho a
honra de apresentar ao leitor, casados, e amantes ainda hoje. A piedade
os uniu; a unio os fez amados e venturosos.
A pouco e pouco, o primeiro amor de Raquel se foi apagando, e o corao
da moa no achou melhor convalescena que desposar o enfermeiro. Se lho
dissessem no tempo em que ela adoecera por amor do mdico, levantaria
desdenhosamente os ombros, e com razo. Donde se colhe quo acertado 
aquele provrbio oriental que diz  que a noite vem pejada do dia
seguinte. Qual fosse a aurora que a sua noite trazia no seio no o
adivinhara Raquel, mas a sua atual opinio  que no a podia haver mais
bela em toda a escala do tempo.
O coronel e D. Matilde, com poucos meses de intervalo, foram continuar
na eternidade a doce unio que os distinguira neste mundo.
Lvia entra serenamente pelo outono da vida. No esqueceu at hoje o
escolhido de seu corao, e  proporo que volvem os anos,
espiritualiza e santifica a memria do passado. Os erros de Flix esto
esquecidos; o trao luminoso, de que ela lhe falara na ltima
entrevista, foi s o que lhe ficou.
No tempo em que os mosteiros andavam nos romances,  como refgio dos
heris, pelo menos,  a viva acabaria os seus dias no claustro. A
solido da cela seria o remate natural da vida, e como a olhos profanos
no seria dado devassar o sagrado recinto, l a deixaramos sozinha e
quieta, aprendendo a amar a Deus e a esquecer os homens.
Mas o romance  secular, e os heris que precisam de solido so
obrigados a busc-la no meio do tumulto. Lvia soube isolar-se na
sociedade. Ningum mais a viu no teatro, na rua, ou em reunies. Suas
visitas so poucas e ntimas. Dos que a conheceram outrora, muitos a
esqueceram mais tarde; alguns a desconheceriam agora.
Talvez o tempo lhe respeitasse a beleza, a no ser a catstrofe que lhe
enlutou a vida. J na meiga e serena fisionomia vo apontado sinais de
decadncia prxima. Os poucos que lhe freqentam a casa no reparam
nisso, porque a alma no perdeu o encanto, e  ainda hoje a mesma
feiticeira amvel de outro tempo. Ela, sim, ela v que a flor inclina o
colo, e que no tarda o vento da noite a dispers-la no cho. Mas do
mesmo modo que a beleza lhe no acordara vaidades, assim a decadncia
lhe no inspira terror.
Para consolo e companhia de sua velhice tem ela o filho, em cuja
educao concentra todos os esforos. Lus possui as graas da me,
apenas modificadas por uns toques varonis. Tem s quinze anos; mas como
herdou a ndole austera da viva, e pouco, muito pouco, da viveza de
imaginao, parece menos um adolescente que um homem.
Flix  que no iria parar ao claustro. A dolorosa impresso dos
acontecimentos a que o leitor assistiu, se profundamente o abateu,
rapidamente se lhe apagou. O amor extinguiu-se como lmpada a que faltou
leo. Era a convivncia da moa que lhe nutria a chama. Quando ela
desapareceu, a chama exausta expirou.
No foi s isto. A sagacidade de Lvia adivinhara as provaes que lhe
daria o casamento. Quando de todo se lhe calou o corao, Flix
confessou ingenuamente a si prprio que o desenlace de seus amores, por
mais que o mortificasse outrora, foi ainda assim a soluo mais
razovel. O amor do mdico teve dvidas pstumas. A veracidade da carta
que impedira o casamento, com o andar dos anos, no s lhe pareceu
possvel, mas at provvel. Meneses disse-lhe um dia ter a prova cabal
de que Lus Batista fora o autor da carta; Flix no recusou o
testemunho nem lhe pediu a prova. O que ele interiormente pensava era
que, suprimida a vilania de Lus Batista, no estava excluda a
verossimilhana do fato, e bastava ela para lhe dar razo.
A vida solitria e austera da viva no pde evitar o esprito
suspeitoso de Flix. Creu nela a princpio. Algum tempo depois duvidou
de que fosse puramente um refgio; acreditou que seria antes uma
dissimulao.
Dispondo de todos os meios que o podiam fazer venturoso, segundo a
sociedade, Flix  essencialmente infeliz. A natureza o ps nessa classe
de homens pusilnimes e visionrios, a quem cabe a reflexo do poeta:
perdem o bem pelo receio de o buscar. No se contentando com a
felicidade exterior que o rodeia, quer haver essa outra das afeies
ntimas, durveis e consoladoras. No h de alcanar nunca, porque o seu
corao, se ressurgiu por alguns dias, esqueceu na sepultura o
sentimento da confiana e a memria das iluses.
FIM

